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Namaste,

Bem-vindo ao meu blog — o lugar onde a Astrologia para de posar pra selfie e começa a encarar a vida sem filtro. Aqui, a linguagem do céu encontra a realidade da pele: boletos, traumas, desejo, silêncio, fé… e aquela coragem feia (porém necessária) de olhar pra si. Eu escrevo contos e histórias que revelam a natureza de cada elemento astrológico de um jeito inusitado — não como "descrição de signo", mas como experiência humana. Narrativas que cutucam onde dói, abraçam onde falta, e fazem o leitor atravessar emoções de verdade: chorar, rir de nervoso, sentir raiva, saudade, vergonha, alívio. Porque evolução não é frase bonita. É combustão interna. Isso aqui não é horóscopo. É espelho. Não é destino. É discernimento. Não é "a culpa é de Mercúrio". É: "o que você vai fazer com isso agora?" Astrohumanamente: onde o simbólico vira carne, e a alma aprende a andar.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

O Carpinteiro do Tempo

A primeira vez que ela viu Saturno ♄, ele não veio com anéis e glamour de NASA. Veio com poeira de cimento no ombro, cheiro de ferrugem na unha, e aquela cara de quem já enterrou três ilusões antes do café da manhã.

Ele estava sentado no degrau quebrado de uma casa antiga em ruínas, mexendo num pedaço de aço como se fosse rosário.

— Você atrasou — ele disse, sem levantar os olhos.

E ela, que sempre achou que “atraso” era coisa do trânsito, sentiu o estômago entender antes do cérebro: o atraso era dela com ela.

Lia trabalhava com alvenaria desde os dezessete. Não por vocação romântica, mas por sobrevivência: quando a vida te entrega pobreza, você aprende que “Serviço” não é conceito; é pão.

A mãe chamava de Sustentação, como quem diz “é isso que segura a casa quando o teto quer desabar.”

O pai chamava de castigo.

E Lia, por muitos anos, chamou de “só por enquanto” — até descobrir que o “só por enquanto” tem 19 anos de dasha, e ri por último.

Ela carregava saco de cimento como quem carregava culpa.

E, pra compensar, carregava um sonho secreto: um dia ia estudar. Psicologia, talvez. Filosofia. Qualquer coisa que não deixasse o corpo doendo como se tivesse sido espancado por um calendário.

Só que toda vez que o sonho levantava a cabeça, vinha um boleto e dava com a foice.


O canteiro era um mundo: classe de trabalhadores, homens calados, mulheres com a coluna aprendendo a ser montanha, e um silêncio grosso que ninguém chamava de depressão porque ali depressão era “frescura”.

O encarregado, Naldo, gostava de mandar ordem cruel com a delicadeza de um tijolo na testa.

— Rápido, Lia. O tempo é dinheiro.

E ela pensava: “O tempo é Deus. E Deus anda com cara de poucos amigos.”


Naquela manhã, a obra era um prédio velho, comprado barato por um investidor conservador, “economicamente reservado”, desses que chamam exploração de “gestão”.

Tinham achado a casa antiga no fundo do terreno, uma ruína que ninguém sabia de quem era.

Lia entrou primeiro, porque era a única que não tinha medo de fantasma — ela tinha medo era de ficar viva sem sentido.


A casa parecia respirar.

Havia carvão num canto, como se alguém tivesse aquecido o inverno ali dentro.

Havia um pote de cerâmica quebrado, como se uma história tivesse caído no chão e ninguém recolheu.

E havia uma corrente. Cadeia.

Não uma metáfora: ferro mesmo, frio, pesado, real.


Ela tocou a corrente e sentiu um choque de memória que não era dela.

Uma visão rápida: um homem velho com uma foice na mão, parado numa estrada de terra, olhando uma plantação. Agricultores ao fundo, agricultura, suor e reza.

O velho não ameaçava. Ele só marcava o limite final.

E, por um segundo, Lia entendeu: Saturno ♄ não te persegue. Ele te encontra onde você se esconde.


— Não mexe nisso — Naldo gritou da porta, como se o passado pudesse processar a empresa.

Ela largou a corrente, mas já era tarde: alguma coisa tinha aberto dentro dela, como uma porta emperrada que finalmente cede.


Na mesma noite, Lia sonhou com Saturno ♄.

Ele estava numa oficina. Não de madeira — de tempo.

Martelava segundos em formato de prego.

Polia arrependimentos como se fossem aço.

E, num canto, havia um livro sem capa, cheio de páginas em branco.

— Seu futuro — ele disse.

— Tá vazio.

— Tá honesto.


Ela acordou com a garganta apertada e uma frase na cabeça: Responsabilidade.

Não a responsabilidade moralista, aquela que vira chicote.

A responsabilidade como chave.


Nos dias seguintes, Lia começou a notar Saturno ♄ em tudo.

Na fila do ônibus, no atraso, no frio da manhã, no peso da mochila, na cara do senhor que varria a calçada como quem varre a própria vida sem reclamar.

Saturno ♄ não era azar. Era o professor implacável que não faz drama, porque o drama é desperdício de energia.


Ela tentou fugir do chamado do jeito clássico: distração.

Rolou rede social até o polegar pedir demissão.

Comprou um batom caro que não cabia no orçamento, só pra sentir que ainda tinha escolha.

Marcou um date com um cara lindo e vazio, porque às vezes a gente confunde carência com roteiro.

No meio do encontro, ele disse:

— Você trabalha com o quê?

— Construção.

Ele riu. Um riso pequeno, classe média, que parece inofensivo até você perceber que ele tem dentes.

— Ah… pesado, né?


Lia voltou pra casa com vontade de chorar e de bater.

A raiva subiu como Marte ♂, mas o coração apertou como Saturno ♄: uma dor no coração (a) que não era física, era existencial.

Ela abriu a geladeira. Nada.

Sentou no chão.

E pela primeira vez, sem romantizar, sem frase bonita, ela falou sozinha:

— Eu tô cansada de sobreviver. Eu quero viver bem aqui.


No sonho daquela noite, Saturno ♄ apareceu de novo, agora com um sorriso quase invisível, desses que só existem pra quem presta atenção.

— Boa.

— Boa o quê? — ela perguntou.

— Você finalmente disse a verdade sem enfeite. Disciplina começa aí.


— Disciplina? — ela cuspiu a palavra como quem morde um limão. — Eu já trabalho que nem uma mula.

Ele olhou pra ela como quem olha pra alguém tentando carregar água num peneiro.

— Isso não é disciplina. Isso é servidão.

— Qual a diferença?

— Disciplina te constrói. Servidão te apaga.


Ele caminhou até a parede da oficina e apontou um calendário feito de pedra.

Cada dia era um tijolo.

Cada mês, uma parede.

Cada ano, uma casa.

— Você tem uma casa por dentro — ele disse. — E ela tá em ruínas.


Lia sentiu o medo subir: medo de tentar e falhar, medo de desejar e não alcançar, medo de sair do lugar e o mundo rir.

Saturno ♄ não consolou. Ele não vinha com algodão, vinha com estrutura.

— Medo é normal. Mas você vai aprender a trabalhar com ele, não a obedecer a ele.


Na semana seguinte, ela fez uma coisa pequena, quase ridícula: comprou um caderno.

Não era um caderno místico. Era daqueles baratinhos, capa mole.

Escreveu na primeira página: “Eu.”

E, embaixo: “Sem desculpa.”


Ela decidiu estudar quarenta minutos por dia, depois do trabalho.

Quarenta. Não quatro horas. Não o delírio do perfeccionismo.

Quarenta minutos: o tamanho possível do impossível.

No primeiro dia, dormiu em cima do caderno.

No segundo, também.

No terceiro, conseguiu ler duas páginas e sentiu uma alegria estranha, que não era euforia — era chão.


Só que o mundo testa quem muda.

Naldo implicou mais.

A mãe disse que ela tava “inventando moda”.

Uma amiga soltou:

— Pra quê estudar? A vida já tá decidida.

E Lia sentiu vontade de voltar pro velho roteiro, porque o velho roteiro dói, mas é conhecido.

Saturno ♄ apareceu nela como uma voz seca:

“Você quer conforto ou quer verdade?”


Um dia, na obra, aconteceu um acidente.

Uma viga mal calculada, pressa, improviso — e a realidade, essa auditora sem senso de humor, fechou o balanço.

Um rapaz caiu. Não morreu, mas quebrou feio.

O canteiro ficou em silêncio, aquele silêncio além do tempo, além do espaço, onde todo mundo lembra que carne é carne.


Lia viu o rapaz no chão, gemendo, e pensou em cadeia de novo.

A cadeia invisível: “eu não mereço”, “eu não consigo”, “isso não é pra mim.”

E entendeu que o acidente não era só físico: era uma lição sobre estrutura.

Sobre fazer direito.

Sobre não brincar com o que sustenta.


Naquela noite, ela pegou a corrente da casa em ruínas (tinha guardado uma foto, como quem guarda prova de um crime espiritual) e escreveu no caderno:

“Eu não quero mais construir prédio torto por dentro.”


Meses passaram.

Não houve milagre. Houve rotina.

E rotina, quando é alinhada, vira alquimia.

Lia foi economizando.

Cortou excessos.

Aprendeu a dizer “não” sem pedir desculpa.

Começou a perceber que conservadorismo interno — aquele que preserva o medo — era só uma forma de se manter pequena pra não incomodar o mundo.


No aniversário de trinta e cinco, ela recebeu uma carta.

Não era do governo. Não era de banco.

Era de um curso técnico noturno que ela tinha se inscrito sem contar pra ninguém.

Aprovada. Bolsa parcial.


Ela chorou.

Não de alegria adolescente.

Chorou como quem tira uma pedra do peito.

E, entre o choro, riu sozinha:

— Saturno ♄, seu desgraçado… você entrega, mas faz a gente suar o sangue primeiro.

No canto do quarto, como se fosse só uma sombra, ele respondeu:

— Eu não entrego. Eu devolvo. O que é seu, quando você para de fugir.


No primeiro dia de aula, Lia chegou atrasada.

Sentou no fundo, com vergonha de estar “velha” demais.

Olhou ao redor: gente mais nova, mais rápida, mais confiante.

O professor falou de cálculo, de medidas, de segurança.

E ela sentiu aquele velho impulso de desistir, porque desistir dá uma sensação falsa de controle: “se eu não tentar, eu não falho.”


Saturno ♄ apareceu na mente dela com uma imagem: o homem velho com a foice na mão, não como ameaça, mas como lembrete.

O tempo passa com ou sem você.

A questão é: você vai passar dormindo ou acordada?


Lia levantou a mão e fez uma pergunta.

A voz saiu trêmula, mas saiu.

O professor respondeu com respeito.

E naquele segundo, ela sentiu algo raríssimo: dignidade.

Não a dignidade do aplauso.

A dignidade de quem se sustenta por dentro.


Anos depois, a casa em ruínas virou outra coisa.

Lia comprou o terreno num acordo improvável (o investidor queria vender rápido; ela queria comprar devagar).

Reformou com cuidado.

Fez alvenaria como oração.

Colocou cerâmica nova no chão, mas manteve um pedaço da parede antiga, à mostra, como cicatriz: pra lembrar que beleza de verdade não apaga história.


Na inauguração, a mãe dela foi.

Olhou em volta e não conseguiu falar por um tempo.

Depois soltou, baixinho:

— Eu achei que você ia ficar presa.

Lia sorriu, sem rancor.

— Eu fiquei.

— E como saiu?

Lia apontou pra própria cabeça.

— Eu construí a chave.


No final da noite, quando todo mundo foi embora, Lia sentou no degrau novo da casa velha e sentiu o silêncio.

Não o silêncio da depressão.

O silêncio da paz adulta.

O silêncio de quem parou de negociar com a própria alma.


Saturno ♄ sentou ao lado dela, como no primeiro dia.

Cheiro de ferro, de carvão, de mundo real.

— Você tá satisfeita? — ele perguntou.

Lia pensou.

Satisfação, ela aprendeu, não é fogos de artifício. É sustentação.

— Tô.

— Então me diga o que você aprendeu.


Ela olhou pro céu, onde ninguém via anéis, mas ela via sentido.

— Que o tempo não pune. O tempo revela.

— Mais.

— Que disciplina é amor com coluna.

— Mais.

— Que privação sem consciência vira servidão. Mas privação com propósito vira liberdade.

Saturno ♄ ficou em silêncio, aprovando sem elogiar. Porque ele não é coach. Ele é estrutura.


Lia respirou fundo e completou, como quem assina um contrato com o destino:

— E que Deus… às vezes… vem vestido de atraso.


Saturno ♄ levantou, ajeitou a poeira invisível do próprio casaco, e antes de desaparecer disse a única frase que ele sempre diz — só que agora ela entendia:

— Agora, continue.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

O Homem que Carregava um Templo no Bolso

 

Ele não parecia um santo.

Parecia um contador que perdeu a fé nas planilhas, um professor expulso do próprio idealismo, um homem de meia-idade com um terno antigo que insistia em não morrer e uma voz que, quando dizia “bom dia”, fazia a sala parar como se alguém tivesse aberto uma janela num quarto abafado.

Chamavam-no de Doutor Bento.

“Doutor” porque ele tinha carteira da OAB. “Bento” porque a vida, ironicamente, só dobrava ele na marra.

Naquela manhã, o fórum cheirava a café requentado e esperança com validade vencida. Gente demais, tempo de menos, e a justiça… a justiça era uma senhora idosa andando de muletas, tentando alcançar um elevador quebrado. O corredor estava cheio de pequenas tragédias com CPF: mãe pedindo pensão, velho pedindo remédio, trabalhador pedindo que reconhecessem que ele existia. Se o mundo fosse um corpo, aquele corredor era a artéria entupida. E o ar condicionado fazia questão de lembrar que até o oxigênio ali tinha burocracia.

Bento não corria. Nunca corria.

Ele caminhava como quem carrega um sino invisível: cada passo era um “acorda”. Não por pressa, mas por presença. Havia gente que pedia atenção como quem implora esmola. Bento oferecia atenção como quem acende uma lamparina e diz: “Pronto. Agora dá pra ver.”

Ele entrou na sala de audiência com uma pasta fina e um rosário sem crucifixo no bolso. Não era religioso de igreja; era religioso de realidade. Acreditava em Deus como quem acredita em gravidade: você pode fingir que não existe, mas tente pular de um prédio pra ver como termina a filosofia. Ele não falava de fé com frases prontas. Falava de fé como se falasse de um chão firme: “Você pode até chorar, mas pisa aqui.”

A cliente dele era uma mulher pequena chamada Lúcia, e pequena era só a altura. A alma dela tinha cara de quem já atravessou enchente segurando criança no colo. Ela estava ali por causa do filho — um menino com uma doença rara que parecia inventada só para humilhar a vida. O plano de saúde negara o tratamento. A empresa dizia “protocolo”. O protocolo, no caso, era um jeito chique de dizer “se vire”.

— Doutor… — Lúcia sussurrou, como se o desespero tivesse medo de ser ouvido.

— Eu ouvi você antes de você falar. — Bento respondeu, olhando nos olhos dela como quem assina um compromisso. — O que eu ainda não ouvi é o que você está escondendo de você mesma.

Ela engoliu seco.

Ela escondia a culpa. Sempre é a culpa. A culpa é o imposto mais caro do mundo: você paga mesmo quando não deve.

Do outro lado, a advogada do plano era impecável. Cabelo, postura, vocabulário. Ela parecia uma tese ambulante. Falava como quem joga xadrez com vidas humanas e chama isso de “eficiência operacional”. Quando ela abriu a boca, a sala ganhou cheiro de formalidade.

— Meritíssimo, não há previsão contratual…

Bento deixou ela terminar. Ele sempre deixava. Porque quando alguém está cavando um buraco, interromper é deselegante. Ele preferia esperar a pessoa chegar numa profundidade suficiente para, depois, a verdade cair como um raio.

Quando chegou a vez dele, Bento não começou com artigo. Começou com uma história.

— Excelência, quando eu era menino, eu vi um homem vender guarda-chuva em dia de sol. Eu achei que ele era burro. Meu pai disse: “Ele não vende guarda-chuva. Ele vende a ideia de que alguém pode ser pego de surpresa.” Hoje eu entendo. O plano de saúde vende a ideia de segurança. E no primeiro trovão… diz que não tem previsão contratual.

A advogada sorriu com o canto da boca, como quem pensa “que fofo”.

O juiz levantou os olhos. Um milímetro. Mas levantou.

Bento continuou, a voz clara, sem gritar, como um sino que não precisa de força pra soar.

— A cláusula é a roupa. A vida é o corpo. Não adianta vestir um cadáver com o terno mais caro. Excelência, se a lei existe, é pra impedir que uma cláusula mate um menino com educação jurídica.

A sala ficou quieta.

Silêncio não é ausência de som. Silêncio é presença de impacto.

O juiz pediu os documentos, leu rápido, e a caneta dele pareceu pesar mais do que o braço. Ele deferiu a liminar. Tratamento autorizado. Multa diária. Urgência reconhecida.

Lúcia chorou sem barulho, como se as lágrimas tivessem aprendido a pedir licença. Bento não comemorou. Só colocou a mão no ombro dela e falou baixo:

— A vida não te deu um filho doente pra te punir. Ela te deu um filho doente pra te revelar. E agora você vai descobrir que dentro de você mora uma mãe que nem você conhecia.

Se aquilo fosse um filme, ali entraria uma música.

Mas a vida não coloca trilha sonora. A vida coloca conta pra pagar.

Na saída, um homem magro, tenso, com olhos de cachorro acuado, encostou Bento perto do bebedouro.

— Doutor… você é o Bento, né? Dizem que você ganha casos impossíveis.

Bento olhou o homem como quem lê uma carta amassada.

— Eu não ganho casos. Eu traduzo sofrimento pra linguagem que o sistema entende.

— Eu tô com uma ordem de despejo. Perdi o emprego. Meu pai tá internado. Eu… — ele falhou, como se o ar tivesse cortado. — Eu não sei mais rezar.

Bento não deu sermão. Deu uma imagem.

— Rezar não é saber palavras bonitas. Rezar é segurar o que resta de você e não deixar cair no chão. — Ele colocou um cartão na mão do homem. — Vai lá amanhã cedo. E leva seu medo também. Eu já vi medo virar coragem quando alguém para de fingir que está bem.

O homem foi embora como quem carrega um fósforo aceso no vento.

Bento atravessou a rua. O sol batia no prédio do fórum e devolvia um brilho quase ofensivo, como se o mundo dissesse “tá vendo? Eu sou lindo, apesar de vocês”. Ele entrou numa padaria simples. Pediu café. Sentou no canto. A rotina dele era essa: depois de mexer com o destino dos outros, ele precisava voltar pro comum, como quem volta do alto do morro e lembra que ainda existe chão.

No balcão, a TV falava de corrupção, violência, inflação, tudo com aquela voz de telejornal que parece narrar o fim do mundo como se fosse previsão do tempo. Bento tomou o café sem pressa, como quem faz uma oração líquida.

Foi então que ele viu.

Um garoto no canto, uns quinze anos, uniforme de escola, mochila rasgada. Ele tinha a cara de quem já aprendeu cedo que a vida não pede desculpa. O garoto observava as pessoas com atenção demais para a idade. Atenção demais é sempre sinal de quem não tem luxo de distração.

Bento percebeu um detalhe: o garoto olhava, sim, mas principalmente… calculava. Como se estivesse medindo o risco de existir.

— Você tá esperando alguém? — Bento perguntou, sem invadir. Só oferecendo presença.

O garoto deu de ombros.

— Tô esperando minha mãe sair do trabalho. Ela limpa ali no prédio. Eu fico aqui porque é mais seguro. Lá fora tem uns caras…

Bento assentiu.

— Tem sempre uns caras. O mundo acha que pode cobrar pedágio de quem só quer voltar pra casa.

O garoto olhou Bento com uma curiosidade desconfiada.

— O senhor é polícia?

Bento quase riu, mas não riu.

— Eu sou advogado. É pior. Polícia pelo menos tem arma. Advogado tem papel.

O garoto soltou um sorriso rápido, desses que nascem e morrem em dois segundos.

— Minha mãe diz que advogado é tudo ladrão.

— Sua mãe tá estatisticamente bem informada. — Bento respondeu, com uma calma que não ofendia. — Mas às vezes aparece um ou outro que só tá tentando consertar um vazamento com fita adesiva.

O garoto fez silêncio.

Depois, como se não aguentasse guardar, soltou:

— O senhor acredita em Deus?

A pergunta veio crua, sem romantismo. Deus, ali, não era poema. Era teste de resistência.

Bento olhou a xícara, como quem escolhe a honestidade certa.

— Eu acredito em Deus do jeito que eu acredito que existe mar, mesmo quando eu tô longe da praia. — Ele apontou pro peito. — Tem dias que eu só escuto o barulho das ondas aqui dentro. Tem dias que eu não escuto nada. Mas eu sei que o mar não desapareceu só porque eu tô cansado.

O garoto ficou imóvel.

Os olhos dele brilharam com raiva — não raiva de Bento, raiva do mundo. E raiva é dor tentando virar músculo.

— Meu pai foi morto. — Ele disse, de uma vez, como quem arranca um dente sem anestesia. — Bala perdida. Todo mundo fala “foi vontade de Deus”. Se isso é Deus, Deus é um criminoso.

Bento não corrigiu. Não suavizou. Não “explicou”.

Ele só deu um nome mais verdadeiro:

— Isso não foi vontade de Deus. Isso foi vontade humana sem freio. — A voz dele ficou mais firme, não mais alta. — Tem gente que usa Deus como álibi pra não encarar a própria covardia. Deus vira o guarda-chuva em dia de sol: não serve pra proteger, serve pra se sentir “coberto”.

O garoto respirou como se tivesse sido visto pela primeira vez.

— Qual seu nome? — Bento perguntou.

— Caio.

— Caio, você não precisa gostar de Deus hoje. Você só precisa não virar aquilo que te feriu. — Bento apontou para a mochila. — Você estuda?

— Tento. — Caio respondeu. — Mas eu fico com a cabeça… — ele girou o dedo na têmpora, como se a mente fosse um rádio com chiado.

— A cabeça é um tribunal sem juiz quando a dor toma o cargo. — Bento disse. — E aí qualquer pensamento vira sentença.

Caio engoliu em seco.

— Eu queria… eu queria fazer alguma coisa. Eu queria que isso significasse alguma coisa.

Bento olhou para ele como quem olha para um broto prestes a florir, mas cercado de fumaça.

— Significar vai significar. A questão é: você vai escolher o quê? — Ele pausou. — Eu tenho um lugar onde dou aula de graça uma vez por semana. Não é aula de escola. É aula de vida com gramática. Aparece lá.

Caio pegou o cartão de Bento como se pegasse uma chave sem saber a porta.

Dois dias depois, Caio apareceu.

O “lugar” era uma salinha emprestada num centro comunitário que tinha cheiro de desinfetante e esperança teimosa. Tinha umas cadeiras, um quadro branco, e um ventilador que fazia barulho de helicóptero cansado. Bento chegava com uma sacola de livros e a paciência de quem já entendeu que ensinar não é despejar conhecimento — é acender fogo sem queimar o aluno.

— Hoje, a gente vai falar de justiça. — Bento escreveu no quadro: “Justiça ≠ Vingança”.

Um dos meninos resmungou:

— Depende.

Bento sorriu.

— “Depende” é a palavra preferida de quem quer ser adulto sem ser responsável.

Caio observava, quieto. Ele tinha uma inteligência que não fazia propaganda, mas dava choque em quem prestasse atenção.

Bento falou de leis, sim, mas falava como quem fala de ossos: estrutura que sustenta o corpo da sociedade. Falou de direitos como quem fala de ar: quando falta, você descobre o valor. Falou de ética sem moralismo: ética como higiene da alma.

No fim, Bento pediu que cada um escrevesse uma coisa que queria transformar na própria vida. Sem frase bonita.

Caio escreveu: “Eu quero parar de ter vontade de sumir.”

Bento leu e não comentou na hora. Guardou. Como quem guarda uma semente.

As semanas passaram, e Caio virou presença. A mãe dele, quando soube, começou a agradecer Bento com um tipo de vergonha: vergonha de precisar, vergonha de receber. Bento desarmava essa vergonha como quem desarma bomba.

— Senhora, gratidão demais vira dívida. Eu não quero que você me pague com reverência. Me pague cuidando do seu filho como se ele fosse um templo.

Ela chorou.

Porque ninguém chama um filho de templo num mundo que chama menino de “estatística”.

Um dia, Caio chegou atrasado, ofegante.

— Doutor… — ele falou baixo, como se o peito estivesse quebrado. — Minha mãe tá sendo ameaçada no prédio. Um cara… ele quer que ela “faça uns favores”. Ela tá com medo de perder o trabalho.

Bento fechou os olhos por um segundo. Não era cansaço. Era foco. Como se ele estivesse escolhendo a espada certa no meio de várias.

— Onde? — ele perguntou.

Caio disse o nome do prédio.

Bento congelou. Um milímetro. Mas congelou.

— O que foi? — Caio perguntou.

Bento respirou.

— Nada. Só… a vida gosta de fazer rimas.

Naquela noite, Bento foi até o prédio. Subiu. O porteiro tentou barrar, e Bento não levantou a voz. Só usou aquela calma que faz até mentira se sentir constrangida.

No corredor do décimo andar, um homem saiu de uma sala, rindo alto, riso de quem acha que o mundo é um buffet. Quando viu Bento, parou.

— Quem é você?

Bento olhou para ele como quem olha para um processo antigo, cheio de páginas sujas.

— Alguém que não veio discutir. Veio encerrar.

O homem riu, debochado.

— Você sabe com quem tá falando?

Bento deu um passo.

— Eu sei com quem você tá falando. Você tá falando com uma mulher que limpa o seu lixo. E você confundiu serviço com submissão.

O homem abriu a boca para ameaçar.

Bento não deixou.

— Se você encostar nela, eu entro com medida protetiva, representação criminal, denúncia trabalhista e, se necessário, eu faço a sua reputação virar farinha. — Ele inclinou a cabeça. — E eu não tô blefando. Eu sou o tipo de advogado que não precisa ganhar. Eu só preciso que você perca.

O homem empalideceu, não por medo de apanhar, mas por medo de existir socialmente sem máscara. Medo de consequência é a única espiritualidade que alguns respeitam.

Quando Bento saiu do elevador, Caio estava no saguão, esperando, roendo a unha como quem mastiga ansiedade.

— Resolveu? — Caio perguntou.

Bento colocou a mão no ombro dele.

— Resolvi o começo. O resto você vai resolver ficando inteiro.

Caio engoliu o choro.

— Por que você faz isso? De verdade. Por que você ajuda?

Bento ficou parado. E então disse a frase que Caio nunca mais esqueceria:

— Porque eu já fui você.

Caio piscou.

— Como assim?

Bento não respondeu ali.

Algumas verdades precisam de cenário.

Na aula seguinte, Bento levou uma caixa. Abriu. Dentro, papéis velhos, recortes de jornal, fotos. Ele colocou tudo na mesa como quem coloca ossos diante de um arqueólogo.

— Eu vou contar uma coisa que eu não conto. — A sala ficou quieta. — Quando eu tinha dezesseis anos, meu pai morreu por uma bala “perdida”. Minha mãe limpava prédio. Eu odiava Deus. Eu odiava o mundo. Eu odiava… eu. — Ele respirou. — Eu quase entrei pro crime. Quase. Porque eu queria que a vida sentisse o que eu senti. Só que um homem me viu.

Caio ficou imóvel, como se alguém tivesse descrito a alma dele em voz alta.

Bento continuou:

— Esse homem era um advogado. Ele me deu livros, me deu trabalho, me deu bronca, me deu direção. Ele não me salvou com carinho. Ele me salvou com estrutura. — Ele apontou para o quadro. — Júpiter… — ele parou, sorriu de leve, como se a palavra fosse interna demais. — O nome dele era João Júpiter. Sim, eu sei. Parece personagem. Mas era real. E ele dizia: “Menino, a vida não te deve justiça. Você é que vai dever justiça pra vida.”

A sala inteira respirou junto.

Bento olhou para Caio.

— Eu não tô te ajudando porque eu sou bom. Eu tô te ajudando porque eu sou grato. E gratidão, quando é de verdade, vira serviço. — Ele inclinou a cabeça. — E agora vem a parte que dói: você não vai virar luz porque a vida foi cruel. Você vai virar luz porque você decidiu que crueldade não terá a última palavra em você.

Caio chorou.

Não era choro de vítima. Era choro de alguém que encontrou um mapa.

Meses depois, Caio passou numa bolsa de um curso técnico. Começou a trabalhar de dia, estudar à noite, e aparecer nas aulas de Bento como quem volta ao poço pra beber água. A mãe dele mudou de emprego. O prédio ficou pra trás.

No último dia do ano, Bento caminhou sozinho até uma ponte. Levou uma sacolinha com pão. Sentou num banco. Jogou migalhas pros pássaros e observou como a vida, mesmo sem discurso, sempre encontra jeito de receber.

O celular vibrou. Mensagem de Caio: “Doutor, eu consegui. E… eu também quero ajudar. Me diz onde eu começo.”

Bento fechou os olhos.

O peito dele não virou festa. Virou silêncio bom. Aquele silêncio que parece uma bênção.

Ele respondeu: “Começa ficando limpo por dentro. Depois, aprende. Depois, serve. E quando você cair, levanta com elegância. Deus ama quem levanta.”

Ele guardou o celular, olhou para o céu e pensou no velho João Júpiter, naquele nome impossível, naquele homem que tinha colocado um templo no bolso e distribuído tijolos invisíveis para meninos que estavam desmoronando.

E entendeu, com uma clareza quase incômoda, a essência de Júpiter ♃ na vida real:

abundância não é ter demais. É transbordar sem virar enchente.

fé não é acreditar em final feliz. É permanecer íntegro sem garantia nenhuma.

ser guru não é ser perfeito. É ser ponte — e aceitar que ponte apanha do tráfego, mas foi feita pra isso.

O mundo continuava o mesmo.

Notícias ruins, gente apressada, injustiça tentando parecer normal.

Mas, em algum lugar, um menino que queria sumir agora queria servir.

E isso, discretamente, era um milagre com roupa de cotidiano.


terça-feira, janeiro 06, 2026

Meu Deus, Me Dá Paciência… Porque Se Me Der Força Eu Process0 Alguém


Naquela terça-feira em que a cidade parecia mastigar vidro e cuspir buzina, Caio acordou com o alarme berrando como se fosse sirene de guerra e, honestamente, era. Ele já abriu os olhos com raiva antes mesmo de lembrar o motivo, o que é um talento que algumas pessoas desenvolvem sem querer, tipo fazer miojo com água fria e ainda achar que tá certo. O corpo dele não despertava: acionava. A cabeça, quadrada, já fazia reunião. O coração, doido pra mandar e-mail sem assunto. E lá no fundo, bem no porão da alma, uma entidade vermelha minúscula batia o pé, segurando um megafone invisível e gritando “ACORDA, SOLDADO”, como se a vida fosse uma academia militar e ele tivesse se inscrito sem ler os termos de uso. Essa entidade tinha nome, claro. Todo mundo tem um nome pra sua raiva quando ela vira personagem. A dele se chamava Mangal. Não era um apelido fofo. Era um aviso.

Caio tentou fazer “a coisa certa”: respirou fundo, contou até dez, agradeceu a existência do oxigênio, e aí alguém no apartamento de cima arrastou uma cadeira como se estivesse rebocando um caminhão. O “até dez” virou “até o inferno”. Mangal apareceu na mente dele como um duendezinho do tamanho de uma garrafa de ketchup, vermelho, com sobrancelha em formato de lâmina, um capacete imaginário e uma espada de aço na mão. Só que, no lugar da espada, era uma colher de pau. Porque a raiva, quando é brasileira e doméstica, não vem com armamento medieval: vem com utensílio de cozinha e um histórico de traumas familiares. Mangal olhou pra Caio e falou com aquela voz de alto-falante interno: “Hoje não vai ter diplomacia. Hoje é dia de ação. Ação pura. Sem poesia. Sem terapia. Sem pedir licença pra existir.” Caio fez o que sempre fazia quando Mangal aparecia: discutiu com ele mentalmente, como se tivesse tempo pra isso. “Cara, eu só preciso ir trabalhar.” E o Mangal, com aquele olhar de quem já leu o roteiro do filme e tá com pressa: “Exato. Trabalhar. Sobreviver. Avançar. Conquistar. E esmagar o que estiver no caminho. Se tiver que quebrar, quebra. Se tiver que gritar, grita. Se tiver que sangrar, sangra — mas não recua.”

No caminho pro trabalho, Caio esbarrou na humanidade inteira. Um cara parou na porta do metrô pra escolher música. Uma senhora entrou primeiro, ficou no meio da porta e resolveu tirar um casaco que parecia uma tenda. Um adolescente decidiu que o corredor era passarela e a mochila, um aríete medieval. Caio sentiu o sangue virar gasolina. Mangal se esfregou as mãos. “Olha aí. Inimigos. Muitos inimigos. Um exército de obstáculos.” Caio não era um homem violento. Ele era um homem cansado. E cansaço é um fósforo perto de um barril quando a vida vive te cutucando com palito. Na catraca, ela não leu o bilhete. Na plataforma, alguém empurrou. Na escada, alguém parou. A cidade inteira parecia treinada pra te ensinar paciência no pior método: o método do ódio. Caio apertou o maxilar. Mangal abriu um sorriso. “Isso. Trava a mandíbula. É assim que se faz aço.”

No escritório, a guerra tinha ar-condicionado e planilhas. Caio trabalhava numa empresa que vendia “soluções”, o que sempre pareceu um jeito elegante de dizer “criamos problemas e depois cobramos pra fingir que resolvemos”. O chefe dele, Arthur, era do tipo que falava “time” com a mesma cara que um carrasco fala “voluntários”. Naquela manhã, Arthur entrou com uma urgência recém-parida: “Preciso disso pra ontem.” Caio olhou o e-mail: o “isso” era uma apresentação inteira, com dados que não existiam, para clientes que não tinham decidido nada, pra um prazo que só fazia sentido na cabeça de alguém que dorme com a própria autoestima como travesseiro. Mangal pulou na mesa mental de Caio e bateu com a colher de pau como juiz: “Agora. Agora você vai fazer justiça. Processa esse homem. Mete ele no jurídico. Esfola com argumentos. Faz ele engolir o próprio PowerPoint.” Caio respirou. Sentiu a garganta coçar com palavras perigosas. E, por um segundo, aquele “Inside Out” interno ficou claríssimo: a raiva não queria destruir por maldade; ela queria proteger. Ela queria impedir que Caio fosse humilhado. Ela queria impedir que ele fosse usado. Raiva é guarda-costas sem treinamento emocional. Ela te ama… só não sabe abraçar.

Caio levantou, foi até a mesa do chefe e falou num tom que não era grito, mas também não era humano: “Isso não dá. Não nesse prazo. E não com esses dados.” Arthur riu, aquela risada de quem sempre apostou que você era domesticável. “Dá sim. Você é bom. Se vira.” E aí, dentro de Caio, Mangal cresceu. Não foi metáfora. Foi sensação física: o peito inflou, o coração bateu com martelo, as mãos ficaram quentes como se estivessem segurando brasa. Mangal colocou um capacete maior e virou general. “Ele te chamou de ferramenta. Te chamou de extensão. Ele te chamou de ‘se vira’. Sabe o que você faz com ‘se vira’? Você vira o jogo.” Caio sentiu vontade de jogar o notebook pela janela. Não jogou. Ainda. Mas algo nele mudou. Ele voltou pra mesa e começou a trabalhar como quem afia faca. Cada slide era uma lâmina. Cada frase, um golpe. E a raiva, curiosamente, deixou ele eficiente. A fala ficou clara. O foco ficou cirúrgico. Ele não estava mais disperso: estava armado.

Na hora do almoço, Caio saiu pra rua com fome e com aquele humor de quem poderia iniciar uma revolução só porque o arroz veio frio. Parou num lugar simples, pediu um prato feito. Sentou. Tentou comer. A televisão do restaurante estava alta, noticiário derramando desgraça como se fosse “bom dia”. Um cara na mesa ao lado falava alto sobre “o povo é burro”. Uma criança derrubou refrigerante e a mãe gritou com ela como se estivesse exorcizando. Caio mastigava e sentia a raiva virar acidez. Mangal deu um suspiro irritado. “Olha como o mundo é incompetente. Olha como ninguém respeita nada. Quer que eu resolva?” Caio respondeu mentalmente: “Não dá pra resolver tudo.” Mangal apontou a colher: “Então escolhe uma coisa. UMA. Mas escolhe. Porque ficar engolindo tudo é como engolir carvão achando que vai virar diamante. Spoiler: vira úlcera.”

De tarde, o cliente fez uma reunião. Arthur exibiu o trabalho de Caio como se fosse dele. Caio assistiu ao próprio suor sendo aplaudido por outra pessoa. O sangue dele fez um caminho estranho: subiu pro rosto e depois desceu como lava. Mangal ficou em pé na sala da mente, mãos na cintura, com um sorriso que não era sorriso, era ameaça. “É agora. Herói ou tapete.” Caio encarou Arthur. Arthur encarou o cliente. O cliente encarou a tela. Ninguém encarou Caio. A invisibilidade doeu mais que qualquer insulto. E aí, do nada, Arthur soltou: “Como eu disse, eu construí isso baseado em…” Caio levantou a mão. A sala congelou. Foi um gesto pequeno. Mas gesto pequeno, quando é o primeiro, tem força de incêndio.

“Só pra alinhar,” Caio disse, com uma calma que parecia vidro prestes a estourar, “eu montei essa estrutura toda, e os dados aqui são estimativas, porque ainda não recebemos a base final.” Silêncio. Arthur ficou imóvel. O cliente olhou pra Caio com surpresa e, pela primeira vez, curiosidade. Mangal sussurrou: “Isso. Justiça. Clareza. Proteção.” Arthur tentou rir e corrigir: “Claro, claro, Caio ajudou…” Caio continuou, sem pedir permissão. “E eu preciso reforçar que, se vocês querem esse resultado, o prazo real é X, não ‘pra ontem’. Pra ontem é ótimo pra meme, ruim pra contrato.” O cliente, que parecia acostumado com gente que só concorda, soltou uma risada curta. “Finalmente alguém falando como adulto.” A reunião mudou de tom. O projeto mudou de prazo. O cliente mudou de respeito. E Arthur… Arthur mudou de cor. Caio sentiu o tremor na mão. Mangal estava satisfeito — não porque venceu alguém, mas porque Caio se defendeu. Isso é a coisa que quase ninguém entende: raiva não é só destruição. Raiva é fronteira. Raiva é o “não” do corpo quando a mente fica tentando ser “boazinha” pra não ser rejeitada.

Só que a vida adora plot twist. Quando Caio achou que tinha resolvido, o celular vibrou. Mensagem da irmã: “Pai caiu. Tá no hospital.” O chão saiu debaixo da realidade. Caio levantou e saiu do escritório sem explicar. Desceu a escada como quem foge de um incêndio, mas por dentro o incêndio era ele. No caminho, o trânsito travou. Claro que travou. A cidade tem um senso de timing demoníaco. Caio bateu no volante. Mangal apareceu gigante, olhos em brasa. “Ninguém ajuda. Nada flui. O mundo é um obstáculo com pernas.” Caio sentiu o peito apertar. Era medo. E o medo, quando encontra a raiva, faz um casamento tóxico: um quer controlar, o outro quer destruir. No hospital, o cheiro de álcool e desespero. A irmã chorando no corredor. O pai, velho, teimoso, com a cabeça enfaixada, tentando fazer piada pra não admitir fragilidade.

Caio entrou no quarto e viu o pai com aquele olhar de quem sempre achou que “aguentar” era sinônimo de “viver”. O pai disse: “Foi nada. Eu tô bem.” E Caio, sem querer, explodiu. “TU NÃO TÁ BEM! TU NUNCA TÁ BEM! TU SEMPRE FINGE QUE TÁ BEM! TU CAIU PORQUE TU NÃO PARA!” A irmã arregalou os olhos. O pai ficou quieto. O quarto ficou menor. Mangal vibrou como se fosse festival: “FALA! TIRA! VOMITA A VERDADE!” Caio tremia. Não era só raiva. Era amor frustrado. Era anos de ver o pai se destruir em nome de “ser forte”. Era o filho carregando a herança emocional de um homem que confundiu dureza com dignidade. O pai respirou e, pela primeira vez, não tentou ser herói. “Eu não sei parar,” ele disse, quase sussurrando. “Se eu paro, eu sinto.” E aquilo bateu em Caio como soco: o pai tinha medo do próprio mundo interno. Caio entendeu, com uma clareza cruel, que aquela raiva que ele sentia… ele aprendeu ali. Não como genética. Como linguagem de sobrevivência.

No corredor, Caio saiu pra tomar água. A mão dele ainda tremia. Mangal apareceu menor, sentado no chão mental, segurando a colher de pau como se fosse um brinquedo quebrado. “Eu só quis proteger,” ele disse, pela primeira vez sem arrogância. Caio fechou os olhos. “Eu sei.” E aí aconteceu a coisa mais estranha: Caio conversou com a própria raiva como se fosse uma criança. Porque era. “Você é rápido. Você é forte. Você me dá coragem. Mas você não pode dirigir sozinho.” Mangal fez bico. “Mas se eu não dirigir, a gente morre.” Caio respondeu: “A gente morre se você dirigir sempre. Porque você não sabe frear. E eu preciso de você com maturidade. Não com explosão.” Mangal ficou em silêncio. Depois, com aquela teimosia típica de general que não gosta de terapia: “Então me treina.”

Nos dias seguintes, Caio fez uma coisa que parecia pequena, mas era revolução: ele aprendeu a usar a raiva como motor, não como incêndio. Ele começou a correr de manhã, não pra “ficar fitness”, mas pra dar um destino físico pra energia que antes virava briga com a vida. Ele parou de responder e-mail na hora da fúria. Escrevia. Salvava. Lia depois. Às vezes apagava. Às vezes enviava. E quando enviava, era preciso, direto, limpo — a fala clara, sem veneno. Ele começou a dizer “não” sem pedir desculpas por existir. Começou a registrar tudo com Arthur, por escrito, não por paranoia, mas por higiene espiritual: gente que se apropria do teu trabalho cresce em terreno de silêncio. E, num dia improvável, ele chamou Arthur pra conversar. Arthur fez cara de “lá vem drama”. Caio disse: “Eu não sou teu escudo nem teu fantasma. Se meu trabalho estiver na tua boca, meu nome vai junto.” Arthur riu sem graça. Tentou manipular. Caio não mordeu. Mangal, dentro dele, sorriu. Não aquele sorriso de destruição. Um sorriso de aço bem forjado.

Meses depois, numa reunião grande, o cliente perguntou: “Quem lidera isso de verdade?” Arthur ia responder. Caio levantou o queixo, sem agressividade, com presença. Antes de Arthur abrir a boca, o cliente apontou: “Você. Eu quero falar com você.” Arthur engoliu seco. Caio sentiu uma calma quente, como fogo controlado em lareira. Mangal apareceu com uma medalha imaginária e colocou no próprio peito, dramático, porque raiva também é vaidosa. “Viu? Eu disse. Ação.” Caio respondeu mentalmente: “Ação com consciência.” Mangal fez uma careta, mas aceitou. Foi um acordo.

No aniversário do pai, Caio viu o velho sentado, mais quieto, menos teimoso. Ainda duro, ainda resistente, mas com um tipo de humildade nova: a humildade de quem caiu e percebeu que não é invencível — e que isso não é vergonha, é verdade. O pai disse: “Tô tentando parar mais.” Caio não fez discurso. Só respondeu: “Boa. Porque eu não quero te ver virando lenda. Eu quero te ver virando gente.” O pai riu. A irmã chorou de leve. Mangal, dentro de Caio, não gritou. Só ficou ali, em pé, como guarda na porta: presente, atento, mas não tirano.

Moral da história: raiva não é demônio. É um santo bruto sem catequese. Ela chega pra te salvar do abuso, do silêncio, da submissão, da injustiça — mas, se você idolatra, ela te escraviza. Marte ♂ dentro de você não quer te transformar num incêndio ambulante; quer te transformar em coragem com coluna. Quer te dar corte, decisão, músculo de “não”. Quer te ensinar que paz não é ausência de conflito: é presença de limites. E limite, meu bem, é amor com dentes.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Mel de Veludo

Helena sempre soube que Vênus ♀ não entra na vida com uma planilha. Ela entra com perfume. E perfume é a maneira mais elegante que o invisível tem de dar um tapa: você não vê, mas obedece. Ela trabalhava num ateliê antigo, escondido atrás de uma fachada discreta, onde as paredes guardavam décadas de segredos aromáticos e as prateleiras pareciam um altar de vidro para frascos minúsculos — aqueles que custam mais do que a autoestima de muita gente e, ainda assim, não garantem caráter. Helena criava fragrâncias como quem reza: misturava água, essências, flores, resinas, e um tipo de esperança que só existe em gente que ainda acredita que o amor pode ser belo sem ser burro. Ela tinha altura média, sorriso agradável, olhos que brilhavam quando falava de arte, e uma calma que fazia os outros respirarem melhor só de estar perto. Mas por dentro havia uma ansiedade no amor, uma fome delicada, como abelhas zumbindo num peito que já tinha aprendido a chamar carência de “romantismo”.

A cidade tinha teatros, galerias e uma gente que se vestia como se estivesse sempre indo receber um prêmio imaginário. Helena fazia parte desse mundo, mas não da parte que se exibia: ela era a mão invisível atrás do encanto. Seus perfumes iam para pescoços caros, cartas de despedida, casamentos com sorriso social e lágrimas no banheiro. Ela colecionava histórias sem querer, porque Vênus ♀ coleciona — anexos, lembranças, acessórios emocionais — e chama isso de “sensibilidade”. No fundo, Helena era uma artista e uma sacerdotisa do agradável, da alegria emocional, da apreciação artística, da gentileza que suaviza. Só que havia um detalhe: ela sabia, com uma precisão cirúrgica, que o agradável vira veneno quando vira necessidade. E mesmo assim, como toda pessoa inteligente que ainda tem pontos cegos, ela continuava tropeçando exatamente onde jurava enxergar.

Numa noite de inauguração de exposição, Helena foi contratada para criar um “ar” específico: algo que combinasse com quadros que gritavam silêncio. Ela chegou cedo, posicionou difusores discretos, e assistiu o espaço encher com aquela fauna humana que fala baixo para parecer profunda. Foi ali que ela o viu. Dante. Maestro. Aquele tipo de homem que parece ter sido esculpido por uma comissão de estética: terno impecável, postura alta, e um olhar que dava a sensação de que ele estava ouvindo uma música secreta dentro de você. Ele se aproximou do painel principal e, antes mesmo de olhar os quadros, fechou os olhos e respirou. Depois virou o rosto na direção dela — como se o perfume tivesse puxado um fio invisível amarrado na alma. “Isso não é cheiro”, ele disse, “é memória com coragem.” Helena riu com um canto de ironia: “Coragem é pagar aluguel. O resto é poesia.” Ele sorriu, e naquele sorriso havia adulação o suficiente para abrir portas internas que ela mantinha trancadas com disciplina e sarcasmo.

Dante começou a aparecer no ateliê com desculpas que pareciam inocentes, mas tinham o gosto óbvio de desejo de dar — não dar presentes; dar presença, dar atenção, dar aquela ilusão de exclusividade que Vênus ♀ distribui como se não cobrasse juros. Ele pedia perfumes para músicos, para amigos, para “uma pessoa especial” que ele nunca nomeava. Conversavam sobre arte, sobre beleza, sobre como o mundo podia ser brutal e ainda assim merecer uma flor. Helena se sentia apreciada, e a apreciação é perigosa quando encontra alguém que cresceu se sentindo invisível. Em pouco tempo, Dante já estava sentado na mesa onde ela pesava essências, observando as gotas caírem como se cada uma fosse um destino. “Você tem algo de água”, ele dizia. “Você se adapta, entra pelos cantos, invade sem violência.” Helena respondia: “Água também afoga. Só avisando.” E por dentro pensava: por favor, não afogue a parte de mim que está finalmente querendo viver.

O primeiro toque aconteceu como acontecem as tragédias elegantes: sem barulho. Foi na hora de fechar a porta, quando a cidade já tinha engolido o dia, e o ateliê cheirava a flores brancas e mel. Dante segurou o pulso dela com delicadeza, como quem pede permissão ao destino. Helena deveria ter recuado — não por moralismo, mas por inteligência. Só que Vênus ♀ tem esse talento perverso: ela coloca uma música bonita na tua cabeça e você acha que é intuição. O beijo veio com o sabor de algo que ela sempre quis e sempre temeu: amor romântico com cara de “final feliz”, daqueles que o corpo acredita antes do cérebro terminar a frase “isso é uma péssima ideia”. Quando ele foi embora, Helena ficou sozinha, e o ateliê pareceu maior, como se a beleza tivesse aberto uma catedral dentro dela. Ela olhou para o espelho do corredor e pensou: pronto. Lá vou eu, a mulher adulta, inteligente, próspera, indo tropeçar num clichê como quem pisa numa casca de banana com salto fino.

Dante era casado. Claro que era. A verdade raramente chega com confete. Chega com um silêncio que pesa. Helena descobriu por acaso: um convite esquecido no bolso do casaco dele, com dois nomes em letras douradas e a palavra “aniversário de casamento”. Ela sentiu o estômago virar um aquário de gelo. Quando confrontou, ele não negou. Ele explicou. E explicações são o batom da mentira: deixam tudo mais apresentável. Disse que o casamento estava morto, que dormiam em camas separadas, que a esposa era uma mulher de “alto status” social, mas de “baixa presença” afetiva. Disse que Helena era alegria, era água viva, era tudo que ele tinha esquecido de sentir. E Helena, com a honestidade nua de quem quer acreditar, ouviu e pensou: talvez. Talvez eu seja mesmo. Talvez eu seja o renascimento. Talvez eu não seja “a outra”, e sim “a verdadeira”. O ego humano adora se fantasiar de destino para não encarar o que é: carência vestida de seda.

A relação virou um segredo bem perfumado. Eles se encontravam em hotéis discretos, em bastidores de teatro, em corredores onde ninguém olhava nos olhos. Helena começou a criar um perfume só para ele, uma assinatura invisível: mel, âmbar, um toque de metal frio — como uma aliança que queima. Dante dizia que aquele aroma fazia ele tocar melhor, reger melhor, viver melhor. E Helena, que sempre acalmou os outros, começou a se esquecer de acalmar a si mesma. Ela comia menos. Dormia menos. Produzia mais. E sorria mais, como se o sorriso pudesse segurar o mundo no lugar. Vênus ♀ gosta de alegria, mas detesta quando a alegria vira moeda de troca. Ainda assim, Helena pagava. Pagava com ansiedade, com autoengano, com uma beleza que começava a doer.

Então veio a notícia que muda o eixo do corpo: um atraso. Um teste. Dois riscos. O coração dela virou tambor e oração ao mesmo tempo. Abortos (a) era uma palavra feia demais para caber na cabeça dela, então ela não pensou nessa palavra. Pensou em futuro. Pensou em vida. Pensou em como a beleza podia, finalmente, virar algo concreto. Quando contou a Dante, ele ficou pálido como papel de partitura. Ele não gritou, não fez escândalo. Ele apenas disse: “Agora não.” E o “agora não” é a forma mais elegante de matar uma coisa dentro de alguém sem sujar as mãos. Helena tentou respirar. Tentou argumentar. Tentou ser lógica. Mas lógica não conversa com pânico. Dante falou de carreira, de reputação, de escândalo, de “não posso destruir tudo”. Helena ouviu e percebeu, como quem leva um soco silencioso, que “tudo” não incluía ela. Ela era um detalhe bonito na vida dele. Um detalhe caro, talvez. Mas detalhe.

Na semana seguinte, Dante sumiu. Sumiu com a habilidade de quem já treinou desaparecer sem culpa. Mensagens lidas e não respondidas. Chamadas que iam para uma caixa postal com voz polida. Helena começou a sentir uma tristeza tão grande que parecia física, como se alguém tivesse colocado um peso de aço na garganta dela. Ela ainda trabalhava, ainda entregava perfumes, ainda sorria para clientes. Mas por dentro havia um incêndio frio. Ela se pegava encarando frascos e pensando: como é que eu, que entendo de essências, não senti o cheiro do abandono chegando? Numa noite, ela foi ao teatro onde ele ensaiava. Esperou na saída dos bastidores. Quando Dante a viu, o rosto dele fez um movimento mínimo — não de amor, nem de ódio; de incômodo. Como quem vê uma conta vencida. “Não aqui”, ele sussurrou. E naquele “não aqui” Helena entendeu: ela tinha virado risco. Não pessoa. Risco.

O corpo, como sempre, resolveu participar do drama. Helena começou a sangrar. Primeiro leve, depois como se a vida estivesse sendo puxada para fora com pressa. Ela foi ao hospital sozinha. Sentada numa cadeira dura, ela assistiu outras pessoas viverem seus pequenos mundos: uma mãe com criança, um homem com o braço enfaixado, uma enfermeira cansada. E ali, no meio do cotidiano indiferente, Helena percebeu um tipo de solidão que não tem poesia: a solidão do “eu me coloquei aqui”. O médico falou palavras técnicas. Ela ouviu “perda”. Ouviu “não foi sua culpa” — que é uma frase que a mente repete, mas o coração contesta com sarcasmo. Quando ela saiu, a rua estava molhada. Água por todos os lados. Ela caminhou como quem atravessa um sonho ruim, e pensou: Vênus ♀ me prometeu beleza e me entregou um manual de guerra.

Dias depois, veio a humilhação final — sempre discreta, porque tragédia bem vestida não faz escândalo; ela apenas te expõe com classe. Helena recebeu um convite para uma festa de gala: o aniversário de casamento de Dante. Alguém tinha enviado por engano, ou por crueldade, ou por aquele tipo de ironia cósmica que parece roteirista com senso de humor nervoso. Ela foi. Não para causar. Para ver. Para encerrar. Vestiu um vestido elegante, prendeu o cabelo, passou um batom que parecia coragem emprestada, e entrou no salão como uma lâmina em forma de mulher. Lá estava Dante, sorrindo, brindando, abraçando a esposa — uma mulher belíssima, perfeitamente composta, com olhos que não sorriam. Helena observou a cena e percebeu: não era um casamento morto. Era um casamento funcional. Era uma aliança de status. E Dante era um homem que sabia tocar emoção como instrumento, mas não sabia sustentá-la quando ela exigia consequência.

Helena se aproximou do casal com a calma de quem já chorou todas as lágrimas em silêncio. A esposa estendeu a mão, cordial, impecável. “Prazer.” Helena apertou e sentiu um frio de porcelana. Dante ficou imóvel por um segundo que pareceu uma eternidade. Helena olhou para ele e disse, com doçura cirúrgica: “O seu perfume está diferente.” A esposa riu: “Ele vive trocando. Ele gosta de variar.” Helena sorriu. “Eu sei.” E naquele sorriso havia algo que nenhuma das duas entendeu completamente: um adeus e um espelho. Helena saiu do salão sem drama. Sem gritar. Sem humilhar ninguém. Porque a maior humilhação ela já tinha sofrido: a de ter se traído para caber no desejo de alguém.

Na volta, choveu mais forte. Helena dirigia devagar, mas o corpo dela estava em guerra. A mente repetia cenas, frases, cheiros. Ela sentiu os olhos arderem — aflições de olhos — como se a visão estivesse cansada de ver o que ela insistia em negar. Na curva de uma ponte, um carro cortou sua frente. O mundo virou luz e água e metal. O impacto foi rápido, como um “fim” sem pontuação. Quando ela abriu os olhos, havia sirenes, vozes, mãos. E um pensamento absurdo, irônico, quase cômico na sua tragédia: então é assim que a beleza termina? Com um airbag e gente estranha dizendo “fica comigo” quando quem deveria ter dito isso nunca disse?

Helena sobreviveu. Tragédias verdadeiramente transformadoras raramente te matam; elas te deixam viva para você ter que encarar o que fez com a própria alma. Ela ficou semanas sem trabalhar. O ateliê ficou fechado. E o silêncio começou a mostrar coisas que o perfume escondia. Ela lembrou da infância, de como aprendeu cedo que agradar era uma forma de sobreviver. Lembrou de como confundiu afeto com aprovação, amor com adulação, beleza com valor. E entendeu, com uma clareza desconfortável, que o grande romance da vida dela nunca tinha sido com Dante. Tinha sido com a ideia de ser escolhida. A ideia de que, se alguém a amasse intensamente, ela finalmente seria suficiente. Que piada. Uma piada elegante, cara, e extremamente popular entre humanos.

Quando voltou ao ateliê, ela não reabriu como antes. Ela tirou os espelhos grandes. Colocou um pequeno, discreto, no fundo — não para se admirar, mas para lembrar: “eu existo fora do olhar de qualquer um.” Ela começou a ensinar. Jovens aprendizes vinham aprender sobre aromas, sobre arte, sobre como construir algo belo sem se destruir no processo. Ela falava de Vênus ♀ como quem fala de uma deusa perigosa: “Beleza é medicina. Mas também é droga. E droga boa é a que te convence de que você controla.” Ela ria, às vezes, daquele riso que nasce do trauma metabolizado. Dizia: “Se alguém te ama só quando você é agradável, isso não é amor. Isso é serviço.” E, com a mesma doçura implacável, dizia também: “Se você só se acha digna quando é escolhida, você não quer amor. Você quer anestesia.”

Anos depois, Helena criou sua obra-prima. Um perfume chamado Veludo. Não era doce demais. Não era floral demais. Tinha mel, sim — abelhas — mas também tinha sal, fumaça, e uma nota metálica quase imperceptível. Era como a vida: bonita, mas não domesticada. No lançamento, muita gente chorou sem saber por quê. Alguns disseram que sentiam “saudade de algo que nunca viveram”. Helena observou e pensou: é isso. Vênus ♀ não é sobre final feliz. É sobre verdade sensorial. Sobre encostar na alma pelo caminho mais perigoso: o prazer. E, naquele dia, ela entendeu a moral que nenhum romance ensina sem te cobrar com juros: a beleza não existe para te salvar. Ela existe para te acordar. E amor — o real — não te pede para virar detalhe. Ele te pede para virar inteira.


domingo, janeiro 04, 2026

O Quiosque das Desculpas


Breno Monteiro tinha um talento que, no Brasil, dá pra virar profissão e karma ao mesmo tempo: ele escrevia mensagens. Não “mensagens” no sentido bíblico. Mensagens no sentido mais sagrado e mais ridículo da vida moderna: o textão de desculpas, o “bom dia” estratégico, o “precisamos conversar” que chega como faca embrulhada em cetim, o “tô com saudade” digitado com a covardia exata pra não parecer carência. Breno era o cara que colocava vírgula em pedido de perdão, como quem coloca cinto de segurança em acidente emocional. Ele trabalhava num quiosque minúsculo no shopping popular, entre a banca de capinha de celular e a loja que vendia perfume “inspirado em” (o eufemismo oficial para “falsificado, mas com autoestima”). O quiosque dele tinha um letreiro: “DES-CLICULPA — mensagens prontas e personalizadas”. Era um trocadilho tão ruim que virava bom, o tipo de piada que o Mercúrio faz quando quer te lembrar que inteligência também é saber ser cafona com precisão.

A clientela era um desfile antropológico da incapacidade humana de falar o óbvio. Tinha homem grandão pedindo pra Breno escrever “um negócio romântico, mas sem parecer gay” (Breno respirava fundo e lembrava que homicídio ainda dava cadeia). Tinha adolescente querendo terminar namoro por DM porque “ao vivo dá ansiedade” (e Breno: “ao vivo dá caráter”, mas ele pensava isso em silêncio, porque o aluguel não se paga com filosofia). Tinha senhora pedindo mensagem pra nora com o veneno cuidadosamente diluído: “Diga que a comida estava maravilhosa… mas que eu faço diferente”. Breno digitava e ria por dentro, porque percebeu cedo que o mundo é um grande call center de gente tentando ser amada sem ter que se expor.

Ele era rápido. Cirúrgico. Tinha o ouvido fino para nuance e o dedo leve para manipulação. Se a pessoa queria pedir desculpa de verdade, ele sabia. Se queria só apagar incêndio e continuar sendo a mesma criatura tóxica, ele sabia também. O problema é que, às vezes, ele entregava o serviço do mesmo jeito. Porque o Mercúrio, quando não é educado pela ética, vira malabarista de mentira. E Breno era um malabarista premiado: fazia uma culpa virar flor, uma traição virar “desentendimento”, uma ausência virar “foco no trabalho”. Ele tinha uma frase padrão pra quase tudo. Inclusive pra ele mesmo.

Só que Breno tinha uma irmã. E isso muda a história de qualquer personagem, porque irmã é aquele espelho que não aceita filtro. Duda era três anos mais nova, baixinha, sarcástica, com uma gargalhada que parecia xilique e cura ao mesmo tempo. Quando eram crianças, Breno empurrou Duda da escada do quintal numa disputa ridícula por um carrinho. Não foi maldade consciente. Foi impulsividade de criança. O universo, porém, é um contador sem senso de humor: Duda bateu a cabeça, teve uma lesão que virou sequelas auditivas. Não ficou surda. Mas perdeu parte da audição e ganhou um zumbido que parecia um mosquito espiritual morando dentro do crânio. O tipo de lembrança que a vida não deixa você esquecer nem quando você tenta virar outra pessoa.

A família nunca transformou o acontecido em conversa. Transformou em silêncio. E silêncio, quando não é escolhido, vira castigo. Breno cresceu carregando uma culpa que ele nunca disse em voz alta, como se nomear o erro fosse pior do que viver dentro dele. Duda cresceu com aparelhos auditivos e uma habilidade avançada de ler lábios, que é o superpoder mais triste do mundo: você aprende a decifrar pessoas porque elas não se dão ao trabalho de falar claro.

Na manhã em que tudo mudou, Duda entrou no quiosque dele como quem invade um templo herético. Ela olhou o letreiro, olhou o notebook, olhou a cara dele e disse: “Então é isso que você virou? Um tradutor de covardia?” Breno respondeu no reflexo: “Bom dia pra você também, flor do dia.” Duda não riu. Ela colocou uma pasta em cima do balcão. Exames. Laudos. E uma frase que, na boca dela, soou como sentença: “Minha audição piorou. O médico falou em implante.” Breno sentiu o estômago gelar, porque ali não tinha como colocar emoji pra suavizar.

Ele tentou fazer o que sempre fazia: achar palavras. “Mas hoje em dia é tranquilo, tecnologia tá avançada, vai dar tudo certo…” Duda levantou a mão e fez sinal de “para”. Um gesto simples, mas que nele bateu como porta na cara. “Não vem com frase pronta. Eu vivo de decifrar gente. Eu sei quando você tá se escondendo atrás de linguagem.”

A partir daquele dia, Breno começou a acompanhar Duda em consultas. E, com uma crueldade poética, foi sendo obrigado a frequentar o lugar onde palavras falham: salas brancas, médicos objetivos, termos técnicos que não aceitam metáfora. Ele, que vendia emoção embalada, agora escutava “perda neurossensorial”, “progressão”, “reabilitação”, como quem ouve um idioma que não tem sinônimo bonito. Num corredor, enquanto Duda fazia audiometria, Breno viu uma criança chorando porque não entendia o que a fonoaudióloga estava pedindo. A mãe, desesperada, tentava traduzir com a cara, com a mão, com o corpo inteiro. Breno, que sempre achou que comunicação era texto, começou a perceber o óbvio: linguagem é corpo. É presença. É ritmo. É olhar. E, quando o som falha, a verdade aparece porque você não pode mais escondê-la em floreio.

Duda pediu uma coisa específica, como se estivesse testando o universo: “Aprende Libras comigo.” Breno quase engasgou. “Mas você não é surda.” “E você não é mudo, mas vive se calando.” Ela falou isso com uma tranquilidade ofensiva, aquela calma que só quem já sofreu demais consegue. Breno riu nervoso. “Tá bom, professora. Eu vou aprender a falar com as mãos, já que com a boca eu sou um mentiroso profissional.” Duda respondeu: “Olha, pelo menos você tem um diagnóstico.”

As aulas de Libras foram o primeiro tapa educado na vaidade de Breno. Ele, que escrevia bonito, virou um analfabeto funcional com dedos. Confundia sinais, fazia movimentos errados, trocava “desculpa” por “abacaxi” (descobriu que dá pra pedir perdão oferecendo fruta, e isso é um conceito espiritual subestimado). Duda ria tanto que o zumbido parecia diminuir só de raiva, como se o próprio corpo dissesse: “Ok, pelo menos hoje a vida tá engraçada.” Breno errava, Duda corrigia, e ele sentia uma coisa estranha: pela primeira vez, ela estava ensinando sem precisar se adaptar a ele. Ele é que estava sendo obrigado a se adaptar ao mundo dela.

Com o tempo, o quiosque “Des-Cliculpa” começou a parecer pequeno demais, não fisicamente, mas espiritualmente. Breno atendia clientes e via neles o mesmo desespero que via nas salas de espera do hospital: gente querendo ser entendida, mas com pavor de se expor. Só que agora ele tinha uma nova consciência, uma espécie de lâmina interna. Ele começou a fazer perguntas antes de escrever. “Você quer pedir desculpa ou quer só parar de se sentir culpado?” “Você quer se reconciliar ou quer limpar sua imagem?” “Você quer conversar ou quer vencer?” Alguns clientes levantavam e iam embora indignados, como se ele tivesse quebrado a regra sagrada do comércio: “o cliente sempre tem razão, mesmo quando é um desastre ambulante.” Outros ficavam. E choravam. Porque, às vezes, a pergunta certa é a terapia mais barata do mercado.

Numa tarde, apareceu um senhor de boné com uma folha amassada. Ele falou baixo: “Moço, eu preciso escrever pra minha filha. Eu briguei com ela. Eu não sei pedir perdão. Eu não quero morrer sem ela.” Breno ia escrever, automático, mas viu as mãos do homem tremendo. Viu a vergonha dele, o orgulho ferido, a garganta travada. Breno puxou uma cadeira. “Me conta.” O senhor contou. Breno ouviu. E, em vez de produzir um texto perfeito, escreveu uma carta simples. Sem floreio. Sem manipulação emocional. Só verdade. Quando o senhor leu em voz alta, tropeçando nas palavras, Breno sentiu um nó subir. Não era drama. Era reconhecimento: aquilo era comunicação real. Aquilo era Mercúrio no estado puro — não o Mercúrio vendedor, mas o Mercúrio mensageiro, o que atravessa pontes perigosas levando o que precisa ser dito.

Na semana do pré-operatório de Duda, Breno começou a receber pedidos de mensagem de um número desconhecido. Sempre o mesmo padrão: desculpas curtas, precisas, sem drama. “Me perdoa por ter sumido.” “Me perdoa por ter sido duro.” “Me perdoa por ter falhado com você quando você era pequeno.” Breno achou estranho. Era um cliente com consistência incomum. A maioria pedia desculpa como quem pede desconto: querendo pagar menos. Esse número pedia como quem sangra. Breno escreveu algumas respostas, sentindo o peito apertar com uma empatia meio irritante. Perguntou nome, história, contexto. A pessoa respondia pouco. Quase nada. Mas pagava certinho, sempre.

Na véspera da cirurgia, Duda estava na casa dele, no sofá, comendo pipoca como se fosse assistir um filme e não enfrentar uma operação. Ela olhou pro quiosque improvisado na sala — Breno agora trabalhava em casa pra ficar perto — e disse: “Você não acha irônico? Você ganhou dinheiro vendendo desculpa pros outros e nunca pediu desculpa pra mim.” Breno tentou desviar com humor. “Eu pedi sim. Várias vezes. Só que você tava sem Wi-Fi emocional pra receber.” Duda soltou um “ha” sem alegria. “Não, Breno. Você pediu do seu jeito: sendo útil, pagando coisas, ficando por perto. Isso é bonito, mas não é desculpa. Isso é tentativa de compensação. Desculpa é encarar o que você fez sem maquiagem.”

Breno ficou em silêncio. E silêncio, nele, sempre foi suspeito. Ele abriu o notebook, como quem abre uma arma. Procurou a pasta “Cartas que eu nunca mandei” e mostrou pra Duda. Tinha uma carta escrita anos atrás, endereçada a ela. Nunca enviada. Duda leu em voz alta, e a voz dela falhou em alguns pontos. Não por emoção cinematográfica. Por algo mais bruto: verdade encostando na ferida. Na carta, Breno dizia tudo que nunca disse com a boca: o pânico, a culpa, a vergonha, o desejo absurdo de voltar no tempo e arrancar o próprio impulso pela raiz. No fim, ele escrevia: “Eu sei que não existe desculpa. Existe só a responsabilidade de viver de um jeito que honre o que eu estraguei.” Duda fechou o notebook devagar e disse: “Tá vendo? Você sabe escrever verdade. Você só prefere vender performance.”

No hospital, no dia da cirurgia, Breno ficou olhando as mãos de Duda. Mãos pequenas, rápidas, expressivas. Mãos que aprenderam a falar quando o som falhou. Ele pensou: “Mercúrio é isso. É ponte. É mão estendida. É o mensageiro que vai e volta mesmo com medo.” E, pela primeira vez em muitos anos, ele sentiu raiva de si mesmo sem transformar em piada. Raiva como combustível, não como chicote.

A cirurgia deu certo. A recuperação, não. Não no sentido trágico. No sentido real: é lenta, confusa, cheia de ruídos, literalmente. Duda descreveu os sons como “robôs cantando pagode num rádio molhado”. Breno ria e chorava por dentro ao mesmo tempo, porque ela ainda conseguia fazer poesia com o desconforto. Só que havia dias em que Duda se irritava. Dias em que ela tirava o processador e ficava em silêncio completo. Breno tentava animar e ela só fazia um sinal com a mão: “Chega.” Ele aprendeu a respeitar o limite. Aprendeu que comunicação não é insistência. É escuta.

Numa noite dessas, enquanto Duda dormia, Breno recebeu outra mensagem do número desconhecido: “Escreve assim: ‘Eu não sei consertar isso, mas eu quero parar de piorar.’” Breno ficou parado olhando pra tela. A frase parecia dele. Era quase a frase da carta que ele nunca enviou. Ele sentiu um frio na nuca, aquele frio que não é medo de fantasma, é medo de coincidência. Ele perguntou: “Quem é você?” A resposta veio depois de um tempo: “Alguém que te conhece melhor do que você gostaria.” Breno riu, nervoso. “Ótimo. Agora eu tenho stalker filosófico. Era o que faltava.” A pessoa respondeu: “Não. Você tem espelho.”

No dia seguinte, Duda acordou cedo e pediu o celular dele. Breno, desconfiado, entregou. Duda abriu as mensagens do número desconhecido. E sorriu com uma maldade amorosa que só irmã tem. “Oi, Breno.” Ele piscou. “Como assim?” Ela mostrou o contato salvo sem nome. Era o número dela. Breno ficou mudo — o que, nele, é milagre ou colapso. “Você… você tava…?” Duda fez sinal em Libras: “Sim.” E falou: “Eu fui sua cliente. Eu comprei desculpas de você por meses. Não pra eu receber. Pra você escrever. Pra você ler. Pra você se ouvir. Porque você só acredita no que sente quando passa pela sua própria estética. Eu tive que entrar no seu idioma pra te arrancar do seu teatro.”

Breno sentiu uma mistura de humilhação e gratidão tão grande que o corpo não soube traduzir. A garganta fechou. A asma quis aparecer, como sempre, pra transformar emoção em falta de ar. Ele pegou a bombinha, usou, respirou, e percebeu que até o ar tinha virado metáfora: “Se eu não respiro verdade, eu sufoco.” Duda olhou pra ele com uma ternura cansada. “Eu te amo, idiota. Mas eu não vou passar a vida tentando adivinhar seu coração. Fala. Do jeito que dá. Sem performance.”

E aí aconteceu o que ele nunca conseguiu fazer com texto bonito. Breno pegou as mãos de Duda e começou a sinalizar, devagar, errando e corrigindo, como uma criança reaprendendo a ser humana: “DESCULPA.” “EU.” “MEDO.” “EU.” “CULPA.” “VOCÊ.” “IMPORTANTE.” “EU.” “QUERO.” “SER.” “MELHOR.” Ele parou, respirou, e fez o sinal de “responsabilidade” do jeito que tinha aprendido. Duda chorou. Não porque era perfeito. Mas porque era verdadeiro.

Nos meses seguintes, Breno fechou o quiosque no shopping e abriu um serviço novo, com outro nome e outra intenção: “Ponte”. Ele ajudava pessoas a escrever cartas, recursos, pedidos de perdão, conversas difíceis. Mas agora ele tinha uma regra: não escrevia pra esconder. Escrevia pra revelar. E, se a pessoa quisesse usar palavra como maquiagem, ele dizia com humor e firmeza: “Amor, eu faço texto, não faço milagre. Mentira você já sabe produzir sozinho.”

A moral, que ficou grudada no corpo dele como tatuagem invisível, era simples e implacável: Mercúrio te dá o dom da palavra, mas cobra o uso dela. Se você usa linguagem pra fugir da verdade, a vida arruma um jeito de te ensinar outro idioma. E quando você aprende, descobre que pedir desculpa não é escrever bonito. É finalmente parar de negociar com o que você já sabe.

sábado, janeiro 03, 2026

O Dia em que o Sol Apagou a Cidade pra Acender um Homem


No domingo em que o céu resolveu fritar a cidade como se fosse um ovo na chapa, Caio acordou com a sensação de que o mundo tinha colocado um holofote na cara dele — e não era pra brilhar, era pra revelar olheiras, boleto e escolhas ruins. O ventilador fazia aquele barulho de helicóptero asmático e, mesmo assim, o quarto parecia uma sauna de academia barata. Ele ficou alguns segundos encarando o teto, que tinha uma rachadura antiga em forma de raio, como se o próprio universo tivesse assinado ali: “vou te rachar no meio e ver o que cai”. No criado-mudo, o celular vibrava com insistência de cobrador e mãe preocupada, as duas forças mais disciplinadoras do Brasil. Mensagens do grupo do trabalho: “Hoje tem evento. Chega cedo.” Evento. A palavra favorita de quem nunca teve que carregar cabo, gerador, caixa de som e o próprio orgulho numa Kombi sem ar-condicionado. Caio era técnico de iluminação. Ele não aparecia na foto, mas era ele quem decidia se você parecia divino ou suspeito. Ele vivia de fabricar auroras pra gente que acordava meio-dia.


No banho, a água saiu morna, com aquela coragem meia-boca que só chuveiro elétrico conhece. Ele se ensaboou pensando no pai, porque pensar no pai era o jeito mais rápido de estragar um domingo sem precisar de notícia. Seu pai chamava Arnaldo e tinha a postura de quem nasceu com farda — mesmo quando estava de bermuda e chinelo, o homem conseguia parecer um decreto. Arnaldo acreditava em duas coisas com a fé que outros guardam pra Deus: pontualidade e “homem tem que ser homem”. Caio nunca soube direito o que essa frase significava na prática, além de uma lista infinita de coisas que ele fazia “errado” só por existir com delicadeza. Quando Caio decidiu trabalhar com arte, luz, palco, cor… Arnaldo olhou como se o filho tivesse anunciado que ia virar contrabandista de glitter. “Vai viver de acender lâmpada pros outros?”, foi a sentença. Caio riu, porque era isso ou chorar, e ele já tinha feito um estoque de choro suficiente pra duas encarnações.


O evento era na praça central: comemoração de aniversário da cidade, com trio elétrico, palco, autoridades, discurso, hino, e aquela energia de “vamos fingir que está tudo ótimo por algumas horas”. Caio chegou cedo, como sempre, porque ele podia ser muitas coisas, mas não podia dar esse gostinho pro pai — mesmo o pai não estando lá. A equipe montava estruturas sob um Sol que parecia um fiscal da Receita: observando tudo, sem piscar, julgando cada sombra. O coordenador, um cara chamado Nilo, tinha bigode de radialista e coração de criança cansada. “Caio, hoje é grande. Vem prefeito, vem deputado, vem o povo todo. Sem erro.” Caio fez o gesto automático de “tá tranquilo”, aquele gesto mentiroso que a gente usa pra enganar o destino, como se o destino fosse um cão e a gente estivesse escondendo um osso atrás das costas.


Enquanto conectava cabos, ele viu o prefeito chegando com sua entourage — assessores, seguranças, sorriso treinado. O prefeito tinha aquele brilho que não era dele, era alugado. Caio conhecia esse tipo de brilho: é a luz que bate no rosto certo, no ângulo certo, e faz até culpa parecer carisma. O prefeito acenava como se cada pessoa fosse um espelho e ele estivesse apaixonado pela própria imagem em 360 graus. Caio sentiu um azedinho no estômago: não era inveja, era alergia a quem confunde Sol com refletores.


O microfone chiou na passagem de som, aquele chiado ancestral que parece o gemido de um fantasma preso dentro do cabo. Caio ajustou, testou, fez tudo com precisão cirúrgica. O Sol continuava lá, cozinhando o asfalto. A praça começou a encher. Crianças com balões. Vendedores de milho. Gente que veio mais pelo pastel do que pelo hino. A banda afinando instrumentos. O tipo de caos organizado que só funciona porque alguém, invisível, sabe onde está cada parafuso. E esse alguém, naquele momento, era Caio.


Às dez e quarenta e dois, a cidade apagou.


Não foi “apagou” poético, foi apagou de verdade: semáforos mortos, comércio virando caverna, ventiladores desistindo, celulares entrando em modo pânico. Um blecaute seco, como um tapa. O palco ficou mudo. O microfone morreu. As caixas de som viraram enfeite caro. O prefeito congelou com um sorriso no meio do caminho, como uma estátua mal esculpida. E o Sol, ironicamente, continuou funcionando com excelência, como se dissesse: “eu não tenho sindicato, meus amores”.


A multidão murmurou. O murmúrio virou inquietação. Inquietação vira bicho. Bicho, quando sente cheiro de confusão, cresce. Nilo veio correndo, suor escorrendo como se o corpo dele tivesse decidido virar cachoeira. “Gerador! Cadê o gerador?” O gerador estava lá, claro. Só que o cabo principal — o cabo que alimentava o coração do palco — tinha dado pau. E ninguém sabia onde estava o cabo reserva. Ninguém, exceto Caio, que guardava essas coisas como quem guarda segredo de família.


Ele correu até a Kombi, abriu o compartimento e puxou o cabo reserva. O cabo estava pesado, como se carregasse não só eletricidade, mas responsabilidade. Ele voltou pro palco, ligou, apertou, testou. Nada. O gerador tossiu, fez um barulho feio, e morreu. Nilo olhou pra Caio como se ele fosse ao mesmo tempo salvador e culpado. “E agora?” E agora. Essa pergunta é a arma mais subestimada do universo. “E agora” derruba impérios. “E agora” revela caráter. “E agora” não aceita currículo.


Enquanto eles tentavam ressuscitar o gerador, alguém gritou da multidão: “Tem gente passando mal!” Outra voz: “Minha mãe tá desmaiando!” Outra: “Chamem ambulância!” Só que a ambulância não chegava porque a avenida estava travada sem semáforo, e o calor estava fazendo as pessoas evaporarem por dentro. O prefeito chamou um assessor, o assessor chamou outro assessor, e, em cinco segundos, ninguém chamava coisa nenhuma — só circulavam com cara de “isso não estava no roteiro”.


Caio sentiu o peito apertar. Não era ansiedade comum. Era aquela pressão estranha, como se o coração tivesse virado um punho. Ele lembrou de uma frase do pai, que ele odiava justamente por ser verdade: “Na hora que o bicho pega, aparece quem manda.” Ele sempre ouviu isso como ameaça. Naquele segundo, ouviu como destino.


Sem pensar demais — porque pensar demais é o jeito mais elegante de fugir — Caio subiu no palco, puxou um megafone velho que estava guardado ali desde a última campanha de vacinação, e apertou o botão. O megafone chiou como um dragão acordando. A praça inteira olhou. Caio, o técnico invisível, virou centro do círculo. Foi um daqueles momentos em que o universo muda a câmera e você sente a vergonha vindo com uma avalanche.


Ele colocou o megafone na boca e disse, com uma voz que ele nem sabia que tinha: “Gente. Eu sei que tá quente. Eu sei que assustou. Mas olha pra mim um segundo.” A multidão, que estava prestes a virar mar revolto, virou lago curioso. Ele continuou: “Quem estiver com tontura, senta no chão agora. Não é vergonha. Vergonha é desmaiar em pé e cair de cara no asfalto. Vira meme e ainda dói.” Algumas pessoas riram — risada curta, mas riram. Ele sentiu o ar voltar pros pulmões como se alguém tivesse aberto uma janela.


Caio apontou pro lado da praça onde havia uma sombra pequena de uma árvore teimosa. “Vamos fazer assim: idosos, crianças e quem tá passando mal vão pra sombra. O resto abre espaço e ajuda. Sem empurrar. Ninguém vai morrer por falta de educação hoje, combinado?” Mais risos. Menos pânico. Ele viu pessoas se mexendo, organizando, carregando cadeira, abanando com papel. Caio não era prefeito, não era deputado, não tinha cargo. Mas naquele instante, ele tinha algo que cargos não garantem: presença. Aquele tipo de presença que não pede licença pra existir.


Nilo, do lado, sussurrou: “Caio, o prefeito quer falar.” Caio olhou pro prefeito, que segurava o celular como se fosse uma arma e um talismã ao mesmo tempo. O prefeito abriu a boca, mas não saiu nada além de um “é…”. Caio pensou: não dá pra entregar o leme pra quem tem medo do mar. E disse no megafone: “O prefeito tá aqui, mas agora a prioridade é saúde. Vamos cuidar das pessoas primeiro e depois a gente faz discurso bonito, tá? Porque desmaio não aplaude.” Foi ousado. Foi perigoso. Foi necessário. E, pela primeira vez na vida, Caio sentiu uma coisa diferente de medo quando contrariou uma autoridade: sentiu respeito por si mesmo.


A confusão diminuiu. Mas ainda tinha um problema: o posto de saúde perto da praça estava sem energia, e lá dentro tinha gente que dependia de equipamentos simples — e de refrigeração pra medicamentos. Uma enfermeira apareceu correndo e falou com Nilo, que falou com Caio: “Tem insulina e vacina que vai estragar. Tem um paciente com oxigênio baixo.” O tipo de frase que dá um soco na alma.


Caio respirou fundo. O calor era uma mão pegando o pescoço da cidade. Ele olhou em volta e viu uma cena quase absurda: um palco gigantesco, feito pra celebrar, virado inútil; e, ao lado, gente tentando manter outras pessoas vivas com leque e sombra. Era como se o universo estivesse fazendo uma aula prática de prioridades. O Sol, lá em cima, parecia um professor implacável: sem slides, sem paciência, sem maquiagem.


“Vamos levar o gerador pro posto”, Caio disse. Nilo arregalou o olho. “Mas… e o evento?” Caio respondeu sem pensar: “Evento é luxo. Vida é urgência. E luxo sem vida vira velório com música.” Nilo engoliu seco. O prefeito ouviu e fingiu que não ouviu. Caio já não se importava.


Arrastar o gerador não foi heroísmo cinematográfico; foi trabalho pesado, suado, com palavrão mental e mão queimando. Um grupo de homens ajudou, e, pela primeira vez naquele dia, o corpo coletivo da praça virou uma equipe. Caio coordenou a rota, desviou de barraca de churros, pediu água, fez piada pra não desmaiar também. Chegaram ao posto. Lá dentro, a luz era um luxo que parecia milagre. Caio conectou o gerador, improvisou adaptadores, fez gambiarra com a reverência de quem sabe que gambiarra, às vezes, é oração prática. O gerador tossiu, reclamou, ameaçou morrer de novo. Caio bateu de leve na carcaça, como se acalmasse um animal assustado. “Vamos lá, querido. Hoje você não me humilha.” O motor pegou. As lâmpadas acenderam. Um freezer voltou a roncar. Um aparelho de oxigênio voltou a soprar. E, por um segundo, Caio sentiu algo que nunca tinha sentido no palco: sentido.


A enfermeira sorriu com os olhos — sorriso de quem não tem tempo pra teatro. “Obrigada.” A palavra entrou nele como um sol interno, quente e firme. Ali, sem aplauso, sem foto, sem discurso, Caio foi rei de alguma coisa real.


Quando ele voltou pra praça, o evento tinha virado outra coisa. Não tinha música. Não tinha discurso. Tinha pessoas sentadas, se ajudando, conversando, compartilhando água, rindo de nervoso. O prefeito, sem microfone, sem roteiro, parecia menor. Caio percebeu, com uma lucidez quase cruel: muita autoridade é só figurino esperando uma câmera. E muita coragem é só alguém fazendo o óbvio quando ninguém quer ser o primeiro.


O blecaute durou mais duas horas. Quando a energia voltou, ninguém tinha ânimo pra comemorar como antes. E, mesmo assim, a praça bateu palma quando soube que o posto não perdeu medicamentos, que ninguém morreu, que os desmaios foram contidos. A palma não foi pra prefeito. Foi pro “nós”. E Caio, que sempre achou que brilho vinha de ser visto, sentiu a estranha alegria de ter sido útil.


No fim do dia, ele pegou um ônibus lotado, com aquele cheiro de desodorante vencido e sobrevivência coletiva. Sentou no último banco e, quando olhou o reflexo na janela, viu o próprio rosto diferente. Não mais bonito. Mais inteiro. O celular vibrava com mensagens: gente marcando ele em post, agradecendo, dizendo “o técnico salvou o dia”, chamando ele de herói. Caio queria rir, porque o Brasil chama de herói quem fez o básico em dia de caos, mas também queria chorar, porque talvez isso dissesse mais sobre a nossa fome de liderança do que sobre ele.


Quando chegou em casa, a mãe estava na cozinha, abanando com um prato. “Tu tá vivo?” “Tô.” “Tu tá comendo?” “Tô tentando.” Ela olhou pra ele com aquela mistura de orgulho e bronca que só mãe consegue sintetizar sem laboratório. “Teu pai ligou.” A frase caiu como um meteoro pequeno. Caio congelou. “Ligou?” “Ligou. Disse pra tu ligar de volta.”


Caio foi pro quarto, sentou na cama e encarou o celular como quem encara um espelho que revela uma versão antiga de si. Ele não falava com o pai fazia meses. Depois de uma discussão feia — daquelas que deixam restos na casa inteira — Caio saiu e não voltou. Arnaldo não pediu desculpa. Caio não pediu também. Orgulho é esse bichinho que a gente alimenta achando que é leão, mas às vezes é só carrapato.


Ele discou. Chamou. Chamou. E, quando atendeu, a voz do pai veio estranha: menos ferro, mais areia. “Caio.” “Pai.” Silêncio. Aquele silêncio era um corredor comprido onde os dois tinham medo de andar. Arnaldo pigarreou. “Eu vi. O povo me mandou vídeo.” Caio sentiu o estômago virar. “Vídeo do quê?” “Do megafone. Do posto. Disseram que você… que você resolveu.” Arnaldo engoliu. “Eu… eu queria dizer uma coisa.”


Caio segurou o celular com força. A mão suava, mas ele não sabia se era calor ou infância. “Fala.”


“Eu sempre achei que você precisava aprender a… a ser firme.” A voz falhou de leve. “E eu confundi firmeza com dureza. Confundi liderança com grito. Confundi respeito com medo.” Caio fechou os olhos. Porque ouvir isso era bom e dolorido, como remédio que arde. Arnaldo continuou: “Hoje eu vi você mandando sem humilhar. Organizando sem se achar. E eu… eu senti orgulho. Um orgulho que eu nunca soube falar sem estragar.”


Caio ficou mudo. Dentro dele, alguma coisa descolou — como se uma placa de gelo que estava presa no peito desde sempre finalmente rachasse.


“Pai…” ele começou, mas a palavra saiu pequena.


Arnaldo respirou do outro lado. “Eu tô no hospital, Caio.” Pausa. “Não é drama. Eu tive uma dor no peito hoje de manhã. Tua mãe não quis te falar antes pra não… sei lá. Pra você não largar tudo.” Caio sentiu o corpo todo ficar leve e pesado ao mesmo tempo. “Eu tô bem. Já fizeram exame. Mas… eu vi o vídeo aqui. E eu pensei: se eu morrer sendo só esse homem duro, eu vou morrer pequeno. E eu não quero morrer pequeno.”


Caio mordeu o lábio com tanta força que sentiu gosto de sangue. O Sol tinha sido implacável com a cidade. Agora estava sendo com ele. E ele entendeu uma coisa com uma clareza quase indecente: às vezes, o maior palco não é praça nem televisão. É uma ligação que a gente evita porque tem medo de sentir.


Ele foi pro hospital naquela mesma hora, sem épico cinematográfico, sem trilha sonora. Só o barulho do carro de aplicativo e o coração dele batendo como tambor de escola de samba em dia de prova. Quando entrou no quarto, Arnaldo estava deitado, com aquele ar de homem que odiava estar vulnerável, mas estava. O pai olhou pra ele. Por um segundo, Caio viu no rosto do pai algo que nunca tinha visto: um menino velho, tentando aprender a pedir colo sem saber a gramática.


Arnaldo estendeu a mão. Caio pegou. A mão do pai era quente e áspera. Mão de quem trabalhou, mandou, errou e, mesmo assim, viveu.


“Eu achei que ser Sol era ser o centro”, Arnaldo disse baixinho, como se confessasse um crime. “Mas hoje eu vi que ser Sol é… é dar direção. É aquecer sem queimar. É ficar em pé quando todo mundo quer sentar.”


Caio respirou fundo. Ele poderia fazer um discurso. Poderia dizer “eu te perdoo” e virar novela. Mas a vida real é mais humilde. Ele só disse: “Então aprende comigo. E eu aprendo com você. Mas sem a parte do grito, tá? Eu não tenho seguro pra isso.” Arnaldo riu. Um riso curto, mas verdadeiro. E naquele riso, Caio sentiu a infância dele receber uma pequena indenização emocional.


Dias depois, o vídeo do “técnico do megafone” ainda circulava. Gente chamava Caio pra trabalhar em eventos maiores. Um vereador tentou convidar ele pra “entrar na política”, com aquele sorriso de quem vende curso e culpa. Caio agradeceu e recusou. Ele entendeu que nem todo chamado é destino; às vezes é só armadilha bem iluminada. Ele voltou pro palco, sim. Mas voltou diferente. Ele não queria mais ser visto por fome. Ele queria ser útil por escolha.


Numa manhã de domingo — de novo domingo, porque domingo é o dia oficial das revelações que a gente não pediu — Caio levou o pai pra tomar sol na varanda. Arnaldo estava em recuperação, e agora obedecia ordens médicas com a mesma teimosia com que dava ordens no passado. Os dois ficaram em silêncio, sentindo o calor manso da manhã, aquele calor que não é castigo, é carinho. O Sol ali parecia outro: não o fiscal, mas o avô.


Caio olhou pro pai e pensou que a vida é uma escola estranha: a gente passa anos brigando com a autoridade lá fora, sem perceber que a autoridade mais perigosa é a de dentro — aquela voz que diz “você não pode”, “você não é”, “você nunca vai”. E, no dia em que essa voz cai, não cai com barulho. Cai com um gesto simples: alguém segurando tua mão sem querer te controlar.


A moral dessa história é bem inconveniente, porque ela te obriga a crescer: o Sol não é aplauso. É coluna. É honra sem plateia. É responsabilidade quando ninguém quer. É a coragem de não virar caricatura de si mesmo. E, principalmente, é perceber que ego não é brilho — é fome. Brilho de verdade é quando você vira luz por dentro, e essa luz não precisa humilhar ninguém pra existir. Porque o verdadeiro rei não é quem manda. É quem sustenta. E sustentar é a forma mais adulta de amar. ☉