Helena sempre soube que Vênus ♀ não entra na vida com uma planilha. Ela entra com perfume. E perfume é a maneira mais elegante que o invisível tem de dar um tapa: você não vê, mas obedece. Ela trabalhava num ateliê antigo, escondido atrás de uma fachada discreta, onde as paredes guardavam décadas de segredos aromáticos e as prateleiras pareciam um altar de vidro para frascos minúsculos — aqueles que custam mais do que a autoestima de muita gente e, ainda assim, não garantem caráter. Helena criava fragrâncias como quem reza: misturava água, essências, flores, resinas, e um tipo de esperança que só existe em gente que ainda acredita que o amor pode ser belo sem ser burro. Ela tinha altura média, sorriso agradável, olhos que brilhavam quando falava de arte, e uma calma que fazia os outros respirarem melhor só de estar perto. Mas por dentro havia uma ansiedade no amor, uma fome delicada, como abelhas zumbindo num peito que já tinha aprendido a chamar carência de “romantismo”.
A cidade tinha teatros, galerias e uma gente que se vestia como se estivesse sempre indo receber um prêmio imaginário. Helena fazia parte desse mundo, mas não da parte que se exibia: ela era a mão invisível atrás do encanto. Seus perfumes iam para pescoços caros, cartas de despedida, casamentos com sorriso social e lágrimas no banheiro. Ela colecionava histórias sem querer, porque Vênus ♀ coleciona — anexos, lembranças, acessórios emocionais — e chama isso de “sensibilidade”. No fundo, Helena era uma artista e uma sacerdotisa do agradável, da alegria emocional, da apreciação artística, da gentileza que suaviza. Só que havia um detalhe: ela sabia, com uma precisão cirúrgica, que o agradável vira veneno quando vira necessidade. E mesmo assim, como toda pessoa inteligente que ainda tem pontos cegos, ela continuava tropeçando exatamente onde jurava enxergar.
Numa noite de inauguração de exposição, Helena foi contratada para criar um “ar” específico: algo que combinasse com quadros que gritavam silêncio. Ela chegou cedo, posicionou difusores discretos, e assistiu o espaço encher com aquela fauna humana que fala baixo para parecer profunda. Foi ali que ela o viu. Dante. Maestro. Aquele tipo de homem que parece ter sido esculpido por uma comissão de estética: terno impecável, postura alta, e um olhar que dava a sensação de que ele estava ouvindo uma música secreta dentro de você. Ele se aproximou do painel principal e, antes mesmo de olhar os quadros, fechou os olhos e respirou. Depois virou o rosto na direção dela — como se o perfume tivesse puxado um fio invisível amarrado na alma. “Isso não é cheiro”, ele disse, “é memória com coragem.” Helena riu com um canto de ironia: “Coragem é pagar aluguel. O resto é poesia.” Ele sorriu, e naquele sorriso havia adulação o suficiente para abrir portas internas que ela mantinha trancadas com disciplina e sarcasmo.
Dante começou a aparecer no ateliê com desculpas que pareciam inocentes, mas tinham o gosto óbvio de desejo de dar — não dar presentes; dar presença, dar atenção, dar aquela ilusão de exclusividade que Vênus ♀ distribui como se não cobrasse juros. Ele pedia perfumes para músicos, para amigos, para “uma pessoa especial” que ele nunca nomeava. Conversavam sobre arte, sobre beleza, sobre como o mundo podia ser brutal e ainda assim merecer uma flor. Helena se sentia apreciada, e a apreciação é perigosa quando encontra alguém que cresceu se sentindo invisível. Em pouco tempo, Dante já estava sentado na mesa onde ela pesava essências, observando as gotas caírem como se cada uma fosse um destino. “Você tem algo de água”, ele dizia. “Você se adapta, entra pelos cantos, invade sem violência.” Helena respondia: “Água também afoga. Só avisando.” E por dentro pensava: por favor, não afogue a parte de mim que está finalmente querendo viver.
O primeiro toque aconteceu como acontecem as tragédias elegantes: sem barulho. Foi na hora de fechar a porta, quando a cidade já tinha engolido o dia, e o ateliê cheirava a flores brancas e mel. Dante segurou o pulso dela com delicadeza, como quem pede permissão ao destino. Helena deveria ter recuado — não por moralismo, mas por inteligência. Só que Vênus ♀ tem esse talento perverso: ela coloca uma música bonita na tua cabeça e você acha que é intuição. O beijo veio com o sabor de algo que ela sempre quis e sempre temeu: amor romântico com cara de “final feliz”, daqueles que o corpo acredita antes do cérebro terminar a frase “isso é uma péssima ideia”. Quando ele foi embora, Helena ficou sozinha, e o ateliê pareceu maior, como se a beleza tivesse aberto uma catedral dentro dela. Ela olhou para o espelho do corredor e pensou: pronto. Lá vou eu, a mulher adulta, inteligente, próspera, indo tropeçar num clichê como quem pisa numa casca de banana com salto fino.
Dante era casado. Claro que era. A verdade raramente chega com confete. Chega com um silêncio que pesa. Helena descobriu por acaso: um convite esquecido no bolso do casaco dele, com dois nomes em letras douradas e a palavra “aniversário de casamento”. Ela sentiu o estômago virar um aquário de gelo. Quando confrontou, ele não negou. Ele explicou. E explicações são o batom da mentira: deixam tudo mais apresentável. Disse que o casamento estava morto, que dormiam em camas separadas, que a esposa era uma mulher de “alto status” social, mas de “baixa presença” afetiva. Disse que Helena era alegria, era água viva, era tudo que ele tinha esquecido de sentir. E Helena, com a honestidade nua de quem quer acreditar, ouviu e pensou: talvez. Talvez eu seja mesmo. Talvez eu seja o renascimento. Talvez eu não seja “a outra”, e sim “a verdadeira”. O ego humano adora se fantasiar de destino para não encarar o que é: carência vestida de seda.
A relação virou um segredo bem perfumado. Eles se encontravam em hotéis discretos, em bastidores de teatro, em corredores onde ninguém olhava nos olhos. Helena começou a criar um perfume só para ele, uma assinatura invisível: mel, âmbar, um toque de metal frio — como uma aliança que queima. Dante dizia que aquele aroma fazia ele tocar melhor, reger melhor, viver melhor. E Helena, que sempre acalmou os outros, começou a se esquecer de acalmar a si mesma. Ela comia menos. Dormia menos. Produzia mais. E sorria mais, como se o sorriso pudesse segurar o mundo no lugar. Vênus ♀ gosta de alegria, mas detesta quando a alegria vira moeda de troca. Ainda assim, Helena pagava. Pagava com ansiedade, com autoengano, com uma beleza que começava a doer.
Então veio a notícia que muda o eixo do corpo: um atraso. Um teste. Dois riscos. O coração dela virou tambor e oração ao mesmo tempo. Abortos (a) era uma palavra feia demais para caber na cabeça dela, então ela não pensou nessa palavra. Pensou em futuro. Pensou em vida. Pensou em como a beleza podia, finalmente, virar algo concreto. Quando contou a Dante, ele ficou pálido como papel de partitura. Ele não gritou, não fez escândalo. Ele apenas disse: “Agora não.” E o “agora não” é a forma mais elegante de matar uma coisa dentro de alguém sem sujar as mãos. Helena tentou respirar. Tentou argumentar. Tentou ser lógica. Mas lógica não conversa com pânico. Dante falou de carreira, de reputação, de escândalo, de “não posso destruir tudo”. Helena ouviu e percebeu, como quem leva um soco silencioso, que “tudo” não incluía ela. Ela era um detalhe bonito na vida dele. Um detalhe caro, talvez. Mas detalhe.
Na semana seguinte, Dante sumiu. Sumiu com a habilidade de quem já treinou desaparecer sem culpa. Mensagens lidas e não respondidas. Chamadas que iam para uma caixa postal com voz polida. Helena começou a sentir uma tristeza tão grande que parecia física, como se alguém tivesse colocado um peso de aço na garganta dela. Ela ainda trabalhava, ainda entregava perfumes, ainda sorria para clientes. Mas por dentro havia um incêndio frio. Ela se pegava encarando frascos e pensando: como é que eu, que entendo de essências, não senti o cheiro do abandono chegando? Numa noite, ela foi ao teatro onde ele ensaiava. Esperou na saída dos bastidores. Quando Dante a viu, o rosto dele fez um movimento mínimo — não de amor, nem de ódio; de incômodo. Como quem vê uma conta vencida. “Não aqui”, ele sussurrou. E naquele “não aqui” Helena entendeu: ela tinha virado risco. Não pessoa. Risco.
O corpo, como sempre, resolveu participar do drama. Helena começou a sangrar. Primeiro leve, depois como se a vida estivesse sendo puxada para fora com pressa. Ela foi ao hospital sozinha. Sentada numa cadeira dura, ela assistiu outras pessoas viverem seus pequenos mundos: uma mãe com criança, um homem com o braço enfaixado, uma enfermeira cansada. E ali, no meio do cotidiano indiferente, Helena percebeu um tipo de solidão que não tem poesia: a solidão do “eu me coloquei aqui”. O médico falou palavras técnicas. Ela ouviu “perda”. Ouviu “não foi sua culpa” — que é uma frase que a mente repete, mas o coração contesta com sarcasmo. Quando ela saiu, a rua estava molhada. Água por todos os lados. Ela caminhou como quem atravessa um sonho ruim, e pensou: Vênus ♀ me prometeu beleza e me entregou um manual de guerra.
Dias depois, veio a humilhação final — sempre discreta, porque tragédia bem vestida não faz escândalo; ela apenas te expõe com classe. Helena recebeu um convite para uma festa de gala: o aniversário de casamento de Dante. Alguém tinha enviado por engano, ou por crueldade, ou por aquele tipo de ironia cósmica que parece roteirista com senso de humor nervoso. Ela foi. Não para causar. Para ver. Para encerrar. Vestiu um vestido elegante, prendeu o cabelo, passou um batom que parecia coragem emprestada, e entrou no salão como uma lâmina em forma de mulher. Lá estava Dante, sorrindo, brindando, abraçando a esposa — uma mulher belíssima, perfeitamente composta, com olhos que não sorriam. Helena observou a cena e percebeu: não era um casamento morto. Era um casamento funcional. Era uma aliança de status. E Dante era um homem que sabia tocar emoção como instrumento, mas não sabia sustentá-la quando ela exigia consequência.
Helena se aproximou do casal com a calma de quem já chorou todas as lágrimas em silêncio. A esposa estendeu a mão, cordial, impecável. “Prazer.” Helena apertou e sentiu um frio de porcelana. Dante ficou imóvel por um segundo que pareceu uma eternidade. Helena olhou para ele e disse, com doçura cirúrgica: “O seu perfume está diferente.” A esposa riu: “Ele vive trocando. Ele gosta de variar.” Helena sorriu. “Eu sei.” E naquele sorriso havia algo que nenhuma das duas entendeu completamente: um adeus e um espelho. Helena saiu do salão sem drama. Sem gritar. Sem humilhar ninguém. Porque a maior humilhação ela já tinha sofrido: a de ter se traído para caber no desejo de alguém.
Na volta, choveu mais forte. Helena dirigia devagar, mas o corpo dela estava em guerra. A mente repetia cenas, frases, cheiros. Ela sentiu os olhos arderem — aflições de olhos — como se a visão estivesse cansada de ver o que ela insistia em negar. Na curva de uma ponte, um carro cortou sua frente. O mundo virou luz e água e metal. O impacto foi rápido, como um “fim” sem pontuação. Quando ela abriu os olhos, havia sirenes, vozes, mãos. E um pensamento absurdo, irônico, quase cômico na sua tragédia: então é assim que a beleza termina? Com um airbag e gente estranha dizendo “fica comigo” quando quem deveria ter dito isso nunca disse?
Helena sobreviveu. Tragédias verdadeiramente transformadoras raramente te matam; elas te deixam viva para você ter que encarar o que fez com a própria alma. Ela ficou semanas sem trabalhar. O ateliê ficou fechado. E o silêncio começou a mostrar coisas que o perfume escondia. Ela lembrou da infância, de como aprendeu cedo que agradar era uma forma de sobreviver. Lembrou de como confundiu afeto com aprovação, amor com adulação, beleza com valor. E entendeu, com uma clareza desconfortável, que o grande romance da vida dela nunca tinha sido com Dante. Tinha sido com a ideia de ser escolhida. A ideia de que, se alguém a amasse intensamente, ela finalmente seria suficiente. Que piada. Uma piada elegante, cara, e extremamente popular entre humanos.
Quando voltou ao ateliê, ela não reabriu como antes. Ela tirou os espelhos grandes. Colocou um pequeno, discreto, no fundo — não para se admirar, mas para lembrar: “eu existo fora do olhar de qualquer um.” Ela começou a ensinar. Jovens aprendizes vinham aprender sobre aromas, sobre arte, sobre como construir algo belo sem se destruir no processo. Ela falava de Vênus ♀ como quem fala de uma deusa perigosa: “Beleza é medicina. Mas também é droga. E droga boa é a que te convence de que você controla.” Ela ria, às vezes, daquele riso que nasce do trauma metabolizado. Dizia: “Se alguém te ama só quando você é agradável, isso não é amor. Isso é serviço.” E, com a mesma doçura implacável, dizia também: “Se você só se acha digna quando é escolhida, você não quer amor. Você quer anestesia.”
Anos depois, Helena criou sua obra-prima. Um perfume chamado Veludo. Não era doce demais. Não era floral demais. Tinha mel, sim — abelhas — mas também tinha sal, fumaça, e uma nota metálica quase imperceptível. Era como a vida: bonita, mas não domesticada. No lançamento, muita gente chorou sem saber por quê. Alguns disseram que sentiam “saudade de algo que nunca viveram”. Helena observou e pensou: é isso. Vênus ♀ não é sobre final feliz. É sobre verdade sensorial. Sobre encostar na alma pelo caminho mais perigoso: o prazer. E, naquele dia, ela entendeu a moral que nenhum romance ensina sem te cobrar com juros: a beleza não existe para te salvar. Ela existe para te acordar. E amor — o real — não te pede para virar detalhe. Ele te pede para virar inteira.
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