A primeira vez que ela viu Saturno ♄, ele não veio com anéis e glamour de NASA. Veio com poeira de cimento no ombro, cheiro de ferrugem na unha, e aquela cara de quem já enterrou três ilusões antes do café da manhã.
Ele estava sentado no degrau quebrado de uma casa antiga em ruínas, mexendo num pedaço de aço como se fosse rosário.
— Você atrasou — ele disse, sem levantar os olhos.
E ela, que sempre achou que “atraso” era coisa do trânsito, sentiu o estômago entender antes do cérebro: o atraso era dela com ela.
Lia trabalhava com alvenaria desde os dezessete. Não por vocação romântica, mas por sobrevivência: quando a vida te entrega pobreza, você aprende que “Serviço” não é conceito; é pão.
A mãe chamava de Sustentação, como quem diz “é isso que segura a casa quando o teto quer desabar.”
O pai chamava de castigo.
E Lia, por muitos anos, chamou de “só por enquanto” — até descobrir que o “só por enquanto” tem 19 anos de dasha, e ri por último.
Ela carregava saco de cimento como quem carregava culpa.
E, pra compensar, carregava um sonho secreto: um dia ia estudar. Psicologia, talvez. Filosofia. Qualquer coisa que não deixasse o corpo doendo como se tivesse sido espancado por um calendário.
Só que toda vez que o sonho levantava a cabeça, vinha um boleto e dava com a foice.
O canteiro era um mundo: classe de trabalhadores, homens calados, mulheres com a coluna aprendendo a ser montanha, e um silêncio grosso que ninguém chamava de depressão porque ali depressão era “frescura”.
O encarregado, Naldo, gostava de mandar ordem cruel com a delicadeza de um tijolo na testa.
— Rápido, Lia. O tempo é dinheiro.
E ela pensava: “O tempo é Deus. E Deus anda com cara de poucos amigos.”
Naquela manhã, a obra era um prédio velho, comprado barato por um investidor conservador, “economicamente reservado”, desses que chamam exploração de “gestão”.
Tinham achado a casa antiga no fundo do terreno, uma ruína que ninguém sabia de quem era.
Lia entrou primeiro, porque era a única que não tinha medo de fantasma — ela tinha medo era de ficar viva sem sentido.
A casa parecia respirar.
Havia carvão num canto, como se alguém tivesse aquecido o inverno ali dentro.
Havia um pote de cerâmica quebrado, como se uma história tivesse caído no chão e ninguém recolheu.
E havia uma corrente. Cadeia.
Não uma metáfora: ferro mesmo, frio, pesado, real.
Ela tocou a corrente e sentiu um choque de memória que não era dela.
Uma visão rápida: um homem velho com uma foice na mão, parado numa estrada de terra, olhando uma plantação. Agricultores ao fundo, agricultura, suor e reza.
O velho não ameaçava. Ele só marcava o limite final.
E, por um segundo, Lia entendeu: Saturno ♄ não te persegue. Ele te encontra onde você se esconde.
— Não mexe nisso — Naldo gritou da porta, como se o passado pudesse processar a empresa.
Ela largou a corrente, mas já era tarde: alguma coisa tinha aberto dentro dela, como uma porta emperrada que finalmente cede.
Na mesma noite, Lia sonhou com Saturno ♄.
Ele estava numa oficina. Não de madeira — de tempo.
Martelava segundos em formato de prego.
Polia arrependimentos como se fossem aço.
E, num canto, havia um livro sem capa, cheio de páginas em branco.
— Seu futuro — ele disse.
— Tá vazio.
— Tá honesto.
Ela acordou com a garganta apertada e uma frase na cabeça: Responsabilidade.
Não a responsabilidade moralista, aquela que vira chicote.
A responsabilidade como chave.
Nos dias seguintes, Lia começou a notar Saturno ♄ em tudo.
Na fila do ônibus, no atraso, no frio da manhã, no peso da mochila, na cara do senhor que varria a calçada como quem varre a própria vida sem reclamar.
Saturno ♄ não era azar. Era o professor implacável que não faz drama, porque o drama é desperdício de energia.
Ela tentou fugir do chamado do jeito clássico: distração.
Rolou rede social até o polegar pedir demissão.
Comprou um batom caro que não cabia no orçamento, só pra sentir que ainda tinha escolha.
Marcou um date com um cara lindo e vazio, porque às vezes a gente confunde carência com roteiro.
No meio do encontro, ele disse:
— Você trabalha com o quê?
— Construção.
Ele riu. Um riso pequeno, classe média, que parece inofensivo até você perceber que ele tem dentes.
— Ah… pesado, né?
Lia voltou pra casa com vontade de chorar e de bater.
A raiva subiu como Marte ♂, mas o coração apertou como Saturno ♄: uma dor no coração (a) que não era física, era existencial.
Ela abriu a geladeira. Nada.
Sentou no chão.
E pela primeira vez, sem romantizar, sem frase bonita, ela falou sozinha:
— Eu tô cansada de sobreviver. Eu quero viver bem aqui.
No sonho daquela noite, Saturno ♄ apareceu de novo, agora com um sorriso quase invisível, desses que só existem pra quem presta atenção.
— Boa.
— Boa o quê? — ela perguntou.
— Você finalmente disse a verdade sem enfeite. Disciplina começa aí.
— Disciplina? — ela cuspiu a palavra como quem morde um limão. — Eu já trabalho que nem uma mula.
Ele olhou pra ela como quem olha pra alguém tentando carregar água num peneiro.
— Isso não é disciplina. Isso é servidão.
— Qual a diferença?
— Disciplina te constrói. Servidão te apaga.
Ele caminhou até a parede da oficina e apontou um calendário feito de pedra.
Cada dia era um tijolo.
Cada mês, uma parede.
Cada ano, uma casa.
— Você tem uma casa por dentro — ele disse. — E ela tá em ruínas.
Lia sentiu o medo subir: medo de tentar e falhar, medo de desejar e não alcançar, medo de sair do lugar e o mundo rir.
Saturno ♄ não consolou. Ele não vinha com algodão, vinha com estrutura.
— Medo é normal. Mas você vai aprender a trabalhar com ele, não a obedecer a ele.
Na semana seguinte, ela fez uma coisa pequena, quase ridícula: comprou um caderno.
Não era um caderno místico. Era daqueles baratinhos, capa mole.
Escreveu na primeira página: “Eu.”
E, embaixo: “Sem desculpa.”
Ela decidiu estudar quarenta minutos por dia, depois do trabalho.
Quarenta. Não quatro horas. Não o delírio do perfeccionismo.
Quarenta minutos: o tamanho possível do impossível.
No primeiro dia, dormiu em cima do caderno.
No segundo, também.
No terceiro, conseguiu ler duas páginas e sentiu uma alegria estranha, que não era euforia — era chão.
Só que o mundo testa quem muda.
Naldo implicou mais.
A mãe disse que ela tava “inventando moda”.
Uma amiga soltou:
— Pra quê estudar? A vida já tá decidida.
E Lia sentiu vontade de voltar pro velho roteiro, porque o velho roteiro dói, mas é conhecido.
Saturno ♄ apareceu nela como uma voz seca:
“Você quer conforto ou quer verdade?”
Um dia, na obra, aconteceu um acidente.
Uma viga mal calculada, pressa, improviso — e a realidade, essa auditora sem senso de humor, fechou o balanço.
Um rapaz caiu. Não morreu, mas quebrou feio.
O canteiro ficou em silêncio, aquele silêncio além do tempo, além do espaço, onde todo mundo lembra que carne é carne.
Lia viu o rapaz no chão, gemendo, e pensou em cadeia de novo.
A cadeia invisível: “eu não mereço”, “eu não consigo”, “isso não é pra mim.”
E entendeu que o acidente não era só físico: era uma lição sobre estrutura.
Sobre fazer direito.
Sobre não brincar com o que sustenta.
Naquela noite, ela pegou a corrente da casa em ruínas (tinha guardado uma foto, como quem guarda prova de um crime espiritual) e escreveu no caderno:
“Eu não quero mais construir prédio torto por dentro.”
Meses passaram.
Não houve milagre. Houve rotina.
E rotina, quando é alinhada, vira alquimia.
Lia foi economizando.
Cortou excessos.
Aprendeu a dizer “não” sem pedir desculpa.
Começou a perceber que conservadorismo interno — aquele que preserva o medo — era só uma forma de se manter pequena pra não incomodar o mundo.
No aniversário de trinta e cinco, ela recebeu uma carta.
Não era do governo. Não era de banco.
Era de um curso técnico noturno que ela tinha se inscrito sem contar pra ninguém.
Aprovada. Bolsa parcial.
Ela chorou.
Não de alegria adolescente.
Chorou como quem tira uma pedra do peito.
E, entre o choro, riu sozinha:
— Saturno ♄, seu desgraçado… você entrega, mas faz a gente suar o sangue primeiro.
No canto do quarto, como se fosse só uma sombra, ele respondeu:
— Eu não entrego. Eu devolvo. O que é seu, quando você para de fugir.
No primeiro dia de aula, Lia chegou atrasada.
Sentou no fundo, com vergonha de estar “velha” demais.
Olhou ao redor: gente mais nova, mais rápida, mais confiante.
O professor falou de cálculo, de medidas, de segurança.
E ela sentiu aquele velho impulso de desistir, porque desistir dá uma sensação falsa de controle: “se eu não tentar, eu não falho.”
Saturno ♄ apareceu na mente dela com uma imagem: o homem velho com a foice na mão, não como ameaça, mas como lembrete.
O tempo passa com ou sem você.
A questão é: você vai passar dormindo ou acordada?
Lia levantou a mão e fez uma pergunta.
A voz saiu trêmula, mas saiu.
O professor respondeu com respeito.
E naquele segundo, ela sentiu algo raríssimo: dignidade.
Não a dignidade do aplauso.
A dignidade de quem se sustenta por dentro.
Anos depois, a casa em ruínas virou outra coisa.
Lia comprou o terreno num acordo improvável (o investidor queria vender rápido; ela queria comprar devagar).
Reformou com cuidado.
Fez alvenaria como oração.
Colocou cerâmica nova no chão, mas manteve um pedaço da parede antiga, à mostra, como cicatriz: pra lembrar que beleza de verdade não apaga história.
Na inauguração, a mãe dela foi.
Olhou em volta e não conseguiu falar por um tempo.
Depois soltou, baixinho:
— Eu achei que você ia ficar presa.
Lia sorriu, sem rancor.
— Eu fiquei.
— E como saiu?
Lia apontou pra própria cabeça.
— Eu construí a chave.
No final da noite, quando todo mundo foi embora, Lia sentou no degrau novo da casa velha e sentiu o silêncio.
Não o silêncio da depressão.
O silêncio da paz adulta.
O silêncio de quem parou de negociar com a própria alma.
Saturno ♄ sentou ao lado dela, como no primeiro dia.
Cheiro de ferro, de carvão, de mundo real.
— Você tá satisfeita? — ele perguntou.
Lia pensou.
Satisfação, ela aprendeu, não é fogos de artifício. É sustentação.
— Tô.
— Então me diga o que você aprendeu.
Ela olhou pro céu, onde ninguém via anéis, mas ela via sentido.
— Que o tempo não pune. O tempo revela.
— Mais.
— Que disciplina é amor com coluna.
— Mais.
— Que privação sem consciência vira servidão. Mas privação com propósito vira liberdade.
Saturno ♄ ficou em silêncio, aprovando sem elogiar. Porque ele não é coach. Ele é estrutura.
Lia respirou fundo e completou, como quem assina um contrato com o destino:
— E que Deus… às vezes… vem vestido de atraso.
Saturno ♄ levantou, ajeitou a poeira invisível do próprio casaco, e antes de desaparecer disse a única frase que ele sempre diz — só que agora ela entendia:
— Agora, continue.
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