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Namaste,

Bem-vindo ao meu blog — o lugar onde a Astrologia para de posar pra selfie e começa a encarar a vida sem filtro. Aqui, a linguagem do céu encontra a realidade da pele: boletos, traumas, desejo, silêncio, fé… e aquela coragem feia (porém necessária) de olhar pra si. Eu escrevo contos e histórias que revelam a natureza de cada elemento astrológico de um jeito inusitado — não como "descrição de signo", mas como experiência humana. Narrativas que cutucam onde dói, abraçam onde falta, e fazem o leitor atravessar emoções de verdade: chorar, rir de nervoso, sentir raiva, saudade, vergonha, alívio. Porque evolução não é frase bonita. É combustão interna. Isso aqui não é horóscopo. É espelho. Não é destino. É discernimento. Não é "a culpa é de Mercúrio". É: "o que você vai fazer com isso agora?" Astrohumanamente: onde o simbólico vira carne, e a alma aprende a andar.

domingo, janeiro 04, 2026

O Quiosque das Desculpas


Breno Monteiro tinha um talento que, no Brasil, dá pra virar profissão e karma ao mesmo tempo: ele escrevia mensagens. Não “mensagens” no sentido bíblico. Mensagens no sentido mais sagrado e mais ridículo da vida moderna: o textão de desculpas, o “bom dia” estratégico, o “precisamos conversar” que chega como faca embrulhada em cetim, o “tô com saudade” digitado com a covardia exata pra não parecer carência. Breno era o cara que colocava vírgula em pedido de perdão, como quem coloca cinto de segurança em acidente emocional. Ele trabalhava num quiosque minúsculo no shopping popular, entre a banca de capinha de celular e a loja que vendia perfume “inspirado em” (o eufemismo oficial para “falsificado, mas com autoestima”). O quiosque dele tinha um letreiro: “DES-CLICULPA — mensagens prontas e personalizadas”. Era um trocadilho tão ruim que virava bom, o tipo de piada que o Mercúrio faz quando quer te lembrar que inteligência também é saber ser cafona com precisão.

A clientela era um desfile antropológico da incapacidade humana de falar o óbvio. Tinha homem grandão pedindo pra Breno escrever “um negócio romântico, mas sem parecer gay” (Breno respirava fundo e lembrava que homicídio ainda dava cadeia). Tinha adolescente querendo terminar namoro por DM porque “ao vivo dá ansiedade” (e Breno: “ao vivo dá caráter”, mas ele pensava isso em silêncio, porque o aluguel não se paga com filosofia). Tinha senhora pedindo mensagem pra nora com o veneno cuidadosamente diluído: “Diga que a comida estava maravilhosa… mas que eu faço diferente”. Breno digitava e ria por dentro, porque percebeu cedo que o mundo é um grande call center de gente tentando ser amada sem ter que se expor.

Ele era rápido. Cirúrgico. Tinha o ouvido fino para nuance e o dedo leve para manipulação. Se a pessoa queria pedir desculpa de verdade, ele sabia. Se queria só apagar incêndio e continuar sendo a mesma criatura tóxica, ele sabia também. O problema é que, às vezes, ele entregava o serviço do mesmo jeito. Porque o Mercúrio, quando não é educado pela ética, vira malabarista de mentira. E Breno era um malabarista premiado: fazia uma culpa virar flor, uma traição virar “desentendimento”, uma ausência virar “foco no trabalho”. Ele tinha uma frase padrão pra quase tudo. Inclusive pra ele mesmo.

Só que Breno tinha uma irmã. E isso muda a história de qualquer personagem, porque irmã é aquele espelho que não aceita filtro. Duda era três anos mais nova, baixinha, sarcástica, com uma gargalhada que parecia xilique e cura ao mesmo tempo. Quando eram crianças, Breno empurrou Duda da escada do quintal numa disputa ridícula por um carrinho. Não foi maldade consciente. Foi impulsividade de criança. O universo, porém, é um contador sem senso de humor: Duda bateu a cabeça, teve uma lesão que virou sequelas auditivas. Não ficou surda. Mas perdeu parte da audição e ganhou um zumbido que parecia um mosquito espiritual morando dentro do crânio. O tipo de lembrança que a vida não deixa você esquecer nem quando você tenta virar outra pessoa.

A família nunca transformou o acontecido em conversa. Transformou em silêncio. E silêncio, quando não é escolhido, vira castigo. Breno cresceu carregando uma culpa que ele nunca disse em voz alta, como se nomear o erro fosse pior do que viver dentro dele. Duda cresceu com aparelhos auditivos e uma habilidade avançada de ler lábios, que é o superpoder mais triste do mundo: você aprende a decifrar pessoas porque elas não se dão ao trabalho de falar claro.

Na manhã em que tudo mudou, Duda entrou no quiosque dele como quem invade um templo herético. Ela olhou o letreiro, olhou o notebook, olhou a cara dele e disse: “Então é isso que você virou? Um tradutor de covardia?” Breno respondeu no reflexo: “Bom dia pra você também, flor do dia.” Duda não riu. Ela colocou uma pasta em cima do balcão. Exames. Laudos. E uma frase que, na boca dela, soou como sentença: “Minha audição piorou. O médico falou em implante.” Breno sentiu o estômago gelar, porque ali não tinha como colocar emoji pra suavizar.

Ele tentou fazer o que sempre fazia: achar palavras. “Mas hoje em dia é tranquilo, tecnologia tá avançada, vai dar tudo certo…” Duda levantou a mão e fez sinal de “para”. Um gesto simples, mas que nele bateu como porta na cara. “Não vem com frase pronta. Eu vivo de decifrar gente. Eu sei quando você tá se escondendo atrás de linguagem.”

A partir daquele dia, Breno começou a acompanhar Duda em consultas. E, com uma crueldade poética, foi sendo obrigado a frequentar o lugar onde palavras falham: salas brancas, médicos objetivos, termos técnicos que não aceitam metáfora. Ele, que vendia emoção embalada, agora escutava “perda neurossensorial”, “progressão”, “reabilitação”, como quem ouve um idioma que não tem sinônimo bonito. Num corredor, enquanto Duda fazia audiometria, Breno viu uma criança chorando porque não entendia o que a fonoaudióloga estava pedindo. A mãe, desesperada, tentava traduzir com a cara, com a mão, com o corpo inteiro. Breno, que sempre achou que comunicação era texto, começou a perceber o óbvio: linguagem é corpo. É presença. É ritmo. É olhar. E, quando o som falha, a verdade aparece porque você não pode mais escondê-la em floreio.

Duda pediu uma coisa específica, como se estivesse testando o universo: “Aprende Libras comigo.” Breno quase engasgou. “Mas você não é surda.” “E você não é mudo, mas vive se calando.” Ela falou isso com uma tranquilidade ofensiva, aquela calma que só quem já sofreu demais consegue. Breno riu nervoso. “Tá bom, professora. Eu vou aprender a falar com as mãos, já que com a boca eu sou um mentiroso profissional.” Duda respondeu: “Olha, pelo menos você tem um diagnóstico.”

As aulas de Libras foram o primeiro tapa educado na vaidade de Breno. Ele, que escrevia bonito, virou um analfabeto funcional com dedos. Confundia sinais, fazia movimentos errados, trocava “desculpa” por “abacaxi” (descobriu que dá pra pedir perdão oferecendo fruta, e isso é um conceito espiritual subestimado). Duda ria tanto que o zumbido parecia diminuir só de raiva, como se o próprio corpo dissesse: “Ok, pelo menos hoje a vida tá engraçada.” Breno errava, Duda corrigia, e ele sentia uma coisa estranha: pela primeira vez, ela estava ensinando sem precisar se adaptar a ele. Ele é que estava sendo obrigado a se adaptar ao mundo dela.

Com o tempo, o quiosque “Des-Cliculpa” começou a parecer pequeno demais, não fisicamente, mas espiritualmente. Breno atendia clientes e via neles o mesmo desespero que via nas salas de espera do hospital: gente querendo ser entendida, mas com pavor de se expor. Só que agora ele tinha uma nova consciência, uma espécie de lâmina interna. Ele começou a fazer perguntas antes de escrever. “Você quer pedir desculpa ou quer só parar de se sentir culpado?” “Você quer se reconciliar ou quer limpar sua imagem?” “Você quer conversar ou quer vencer?” Alguns clientes levantavam e iam embora indignados, como se ele tivesse quebrado a regra sagrada do comércio: “o cliente sempre tem razão, mesmo quando é um desastre ambulante.” Outros ficavam. E choravam. Porque, às vezes, a pergunta certa é a terapia mais barata do mercado.

Numa tarde, apareceu um senhor de boné com uma folha amassada. Ele falou baixo: “Moço, eu preciso escrever pra minha filha. Eu briguei com ela. Eu não sei pedir perdão. Eu não quero morrer sem ela.” Breno ia escrever, automático, mas viu as mãos do homem tremendo. Viu a vergonha dele, o orgulho ferido, a garganta travada. Breno puxou uma cadeira. “Me conta.” O senhor contou. Breno ouviu. E, em vez de produzir um texto perfeito, escreveu uma carta simples. Sem floreio. Sem manipulação emocional. Só verdade. Quando o senhor leu em voz alta, tropeçando nas palavras, Breno sentiu um nó subir. Não era drama. Era reconhecimento: aquilo era comunicação real. Aquilo era Mercúrio no estado puro — não o Mercúrio vendedor, mas o Mercúrio mensageiro, o que atravessa pontes perigosas levando o que precisa ser dito.

Na semana do pré-operatório de Duda, Breno começou a receber pedidos de mensagem de um número desconhecido. Sempre o mesmo padrão: desculpas curtas, precisas, sem drama. “Me perdoa por ter sumido.” “Me perdoa por ter sido duro.” “Me perdoa por ter falhado com você quando você era pequeno.” Breno achou estranho. Era um cliente com consistência incomum. A maioria pedia desculpa como quem pede desconto: querendo pagar menos. Esse número pedia como quem sangra. Breno escreveu algumas respostas, sentindo o peito apertar com uma empatia meio irritante. Perguntou nome, história, contexto. A pessoa respondia pouco. Quase nada. Mas pagava certinho, sempre.

Na véspera da cirurgia, Duda estava na casa dele, no sofá, comendo pipoca como se fosse assistir um filme e não enfrentar uma operação. Ela olhou pro quiosque improvisado na sala — Breno agora trabalhava em casa pra ficar perto — e disse: “Você não acha irônico? Você ganhou dinheiro vendendo desculpa pros outros e nunca pediu desculpa pra mim.” Breno tentou desviar com humor. “Eu pedi sim. Várias vezes. Só que você tava sem Wi-Fi emocional pra receber.” Duda soltou um “ha” sem alegria. “Não, Breno. Você pediu do seu jeito: sendo útil, pagando coisas, ficando por perto. Isso é bonito, mas não é desculpa. Isso é tentativa de compensação. Desculpa é encarar o que você fez sem maquiagem.”

Breno ficou em silêncio. E silêncio, nele, sempre foi suspeito. Ele abriu o notebook, como quem abre uma arma. Procurou a pasta “Cartas que eu nunca mandei” e mostrou pra Duda. Tinha uma carta escrita anos atrás, endereçada a ela. Nunca enviada. Duda leu em voz alta, e a voz dela falhou em alguns pontos. Não por emoção cinematográfica. Por algo mais bruto: verdade encostando na ferida. Na carta, Breno dizia tudo que nunca disse com a boca: o pânico, a culpa, a vergonha, o desejo absurdo de voltar no tempo e arrancar o próprio impulso pela raiz. No fim, ele escrevia: “Eu sei que não existe desculpa. Existe só a responsabilidade de viver de um jeito que honre o que eu estraguei.” Duda fechou o notebook devagar e disse: “Tá vendo? Você sabe escrever verdade. Você só prefere vender performance.”

No hospital, no dia da cirurgia, Breno ficou olhando as mãos de Duda. Mãos pequenas, rápidas, expressivas. Mãos que aprenderam a falar quando o som falhou. Ele pensou: “Mercúrio é isso. É ponte. É mão estendida. É o mensageiro que vai e volta mesmo com medo.” E, pela primeira vez em muitos anos, ele sentiu raiva de si mesmo sem transformar em piada. Raiva como combustível, não como chicote.

A cirurgia deu certo. A recuperação, não. Não no sentido trágico. No sentido real: é lenta, confusa, cheia de ruídos, literalmente. Duda descreveu os sons como “robôs cantando pagode num rádio molhado”. Breno ria e chorava por dentro ao mesmo tempo, porque ela ainda conseguia fazer poesia com o desconforto. Só que havia dias em que Duda se irritava. Dias em que ela tirava o processador e ficava em silêncio completo. Breno tentava animar e ela só fazia um sinal com a mão: “Chega.” Ele aprendeu a respeitar o limite. Aprendeu que comunicação não é insistência. É escuta.

Numa noite dessas, enquanto Duda dormia, Breno recebeu outra mensagem do número desconhecido: “Escreve assim: ‘Eu não sei consertar isso, mas eu quero parar de piorar.’” Breno ficou parado olhando pra tela. A frase parecia dele. Era quase a frase da carta que ele nunca enviou. Ele sentiu um frio na nuca, aquele frio que não é medo de fantasma, é medo de coincidência. Ele perguntou: “Quem é você?” A resposta veio depois de um tempo: “Alguém que te conhece melhor do que você gostaria.” Breno riu, nervoso. “Ótimo. Agora eu tenho stalker filosófico. Era o que faltava.” A pessoa respondeu: “Não. Você tem espelho.”

No dia seguinte, Duda acordou cedo e pediu o celular dele. Breno, desconfiado, entregou. Duda abriu as mensagens do número desconhecido. E sorriu com uma maldade amorosa que só irmã tem. “Oi, Breno.” Ele piscou. “Como assim?” Ela mostrou o contato salvo sem nome. Era o número dela. Breno ficou mudo — o que, nele, é milagre ou colapso. “Você… você tava…?” Duda fez sinal em Libras: “Sim.” E falou: “Eu fui sua cliente. Eu comprei desculpas de você por meses. Não pra eu receber. Pra você escrever. Pra você ler. Pra você se ouvir. Porque você só acredita no que sente quando passa pela sua própria estética. Eu tive que entrar no seu idioma pra te arrancar do seu teatro.”

Breno sentiu uma mistura de humilhação e gratidão tão grande que o corpo não soube traduzir. A garganta fechou. A asma quis aparecer, como sempre, pra transformar emoção em falta de ar. Ele pegou a bombinha, usou, respirou, e percebeu que até o ar tinha virado metáfora: “Se eu não respiro verdade, eu sufoco.” Duda olhou pra ele com uma ternura cansada. “Eu te amo, idiota. Mas eu não vou passar a vida tentando adivinhar seu coração. Fala. Do jeito que dá. Sem performance.”

E aí aconteceu o que ele nunca conseguiu fazer com texto bonito. Breno pegou as mãos de Duda e começou a sinalizar, devagar, errando e corrigindo, como uma criança reaprendendo a ser humana: “DESCULPA.” “EU.” “MEDO.” “EU.” “CULPA.” “VOCÊ.” “IMPORTANTE.” “EU.” “QUERO.” “SER.” “MELHOR.” Ele parou, respirou, e fez o sinal de “responsabilidade” do jeito que tinha aprendido. Duda chorou. Não porque era perfeito. Mas porque era verdadeiro.

Nos meses seguintes, Breno fechou o quiosque no shopping e abriu um serviço novo, com outro nome e outra intenção: “Ponte”. Ele ajudava pessoas a escrever cartas, recursos, pedidos de perdão, conversas difíceis. Mas agora ele tinha uma regra: não escrevia pra esconder. Escrevia pra revelar. E, se a pessoa quisesse usar palavra como maquiagem, ele dizia com humor e firmeza: “Amor, eu faço texto, não faço milagre. Mentira você já sabe produzir sozinho.”

A moral, que ficou grudada no corpo dele como tatuagem invisível, era simples e implacável: Mercúrio te dá o dom da palavra, mas cobra o uso dela. Se você usa linguagem pra fugir da verdade, a vida arruma um jeito de te ensinar outro idioma. E quando você aprende, descobre que pedir desculpa não é escrever bonito. É finalmente parar de negociar com o que você já sabe.

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