Caio tentou fazer “a coisa certa”: respirou fundo, contou até dez, agradeceu a existência do oxigênio, e aí alguém no apartamento de cima arrastou uma cadeira como se estivesse rebocando um caminhão. O “até dez” virou “até o inferno”. Mangal apareceu na mente dele como um duendezinho do tamanho de uma garrafa de ketchup, vermelho, com sobrancelha em formato de lâmina, um capacete imaginário e uma espada de aço na mão. Só que, no lugar da espada, era uma colher de pau. Porque a raiva, quando é brasileira e doméstica, não vem com armamento medieval: vem com utensílio de cozinha e um histórico de traumas familiares. Mangal olhou pra Caio e falou com aquela voz de alto-falante interno: “Hoje não vai ter diplomacia. Hoje é dia de ação. Ação pura. Sem poesia. Sem terapia. Sem pedir licença pra existir.” Caio fez o que sempre fazia quando Mangal aparecia: discutiu com ele mentalmente, como se tivesse tempo pra isso. “Cara, eu só preciso ir trabalhar.” E o Mangal, com aquele olhar de quem já leu o roteiro do filme e tá com pressa: “Exato. Trabalhar. Sobreviver. Avançar. Conquistar. E esmagar o que estiver no caminho. Se tiver que quebrar, quebra. Se tiver que gritar, grita. Se tiver que sangrar, sangra — mas não recua.”
No caminho pro trabalho, Caio esbarrou na humanidade inteira. Um cara parou na porta do metrô pra escolher música. Uma senhora entrou primeiro, ficou no meio da porta e resolveu tirar um casaco que parecia uma tenda. Um adolescente decidiu que o corredor era passarela e a mochila, um aríete medieval. Caio sentiu o sangue virar gasolina. Mangal se esfregou as mãos. “Olha aí. Inimigos. Muitos inimigos. Um exército de obstáculos.” Caio não era um homem violento. Ele era um homem cansado. E cansaço é um fósforo perto de um barril quando a vida vive te cutucando com palito. Na catraca, ela não leu o bilhete. Na plataforma, alguém empurrou. Na escada, alguém parou. A cidade inteira parecia treinada pra te ensinar paciência no pior método: o método do ódio. Caio apertou o maxilar. Mangal abriu um sorriso. “Isso. Trava a mandíbula. É assim que se faz aço.”
No escritório, a guerra tinha ar-condicionado e planilhas. Caio trabalhava numa empresa que vendia “soluções”, o que sempre pareceu um jeito elegante de dizer “criamos problemas e depois cobramos pra fingir que resolvemos”. O chefe dele, Arthur, era do tipo que falava “time” com a mesma cara que um carrasco fala “voluntários”. Naquela manhã, Arthur entrou com uma urgência recém-parida: “Preciso disso pra ontem.” Caio olhou o e-mail: o “isso” era uma apresentação inteira, com dados que não existiam, para clientes que não tinham decidido nada, pra um prazo que só fazia sentido na cabeça de alguém que dorme com a própria autoestima como travesseiro. Mangal pulou na mesa mental de Caio e bateu com a colher de pau como juiz: “Agora. Agora você vai fazer justiça. Processa esse homem. Mete ele no jurídico. Esfola com argumentos. Faz ele engolir o próprio PowerPoint.” Caio respirou. Sentiu a garganta coçar com palavras perigosas. E, por um segundo, aquele “Inside Out” interno ficou claríssimo: a raiva não queria destruir por maldade; ela queria proteger. Ela queria impedir que Caio fosse humilhado. Ela queria impedir que ele fosse usado. Raiva é guarda-costas sem treinamento emocional. Ela te ama… só não sabe abraçar.
Caio levantou, foi até a mesa do chefe e falou num tom que não era grito, mas também não era humano: “Isso não dá. Não nesse prazo. E não com esses dados.” Arthur riu, aquela risada de quem sempre apostou que você era domesticável. “Dá sim. Você é bom. Se vira.” E aí, dentro de Caio, Mangal cresceu. Não foi metáfora. Foi sensação física: o peito inflou, o coração bateu com martelo, as mãos ficaram quentes como se estivessem segurando brasa. Mangal colocou um capacete maior e virou general. “Ele te chamou de ferramenta. Te chamou de extensão. Ele te chamou de ‘se vira’. Sabe o que você faz com ‘se vira’? Você vira o jogo.” Caio sentiu vontade de jogar o notebook pela janela. Não jogou. Ainda. Mas algo nele mudou. Ele voltou pra mesa e começou a trabalhar como quem afia faca. Cada slide era uma lâmina. Cada frase, um golpe. E a raiva, curiosamente, deixou ele eficiente. A fala ficou clara. O foco ficou cirúrgico. Ele não estava mais disperso: estava armado.
Na hora do almoço, Caio saiu pra rua com fome e com aquele humor de quem poderia iniciar uma revolução só porque o arroz veio frio. Parou num lugar simples, pediu um prato feito. Sentou. Tentou comer. A televisão do restaurante estava alta, noticiário derramando desgraça como se fosse “bom dia”. Um cara na mesa ao lado falava alto sobre “o povo é burro”. Uma criança derrubou refrigerante e a mãe gritou com ela como se estivesse exorcizando. Caio mastigava e sentia a raiva virar acidez. Mangal deu um suspiro irritado. “Olha como o mundo é incompetente. Olha como ninguém respeita nada. Quer que eu resolva?” Caio respondeu mentalmente: “Não dá pra resolver tudo.” Mangal apontou a colher: “Então escolhe uma coisa. UMA. Mas escolhe. Porque ficar engolindo tudo é como engolir carvão achando que vai virar diamante. Spoiler: vira úlcera.”
De tarde, o cliente fez uma reunião. Arthur exibiu o trabalho de Caio como se fosse dele. Caio assistiu ao próprio suor sendo aplaudido por outra pessoa. O sangue dele fez um caminho estranho: subiu pro rosto e depois desceu como lava. Mangal ficou em pé na sala da mente, mãos na cintura, com um sorriso que não era sorriso, era ameaça. “É agora. Herói ou tapete.” Caio encarou Arthur. Arthur encarou o cliente. O cliente encarou a tela. Ninguém encarou Caio. A invisibilidade doeu mais que qualquer insulto. E aí, do nada, Arthur soltou: “Como eu disse, eu construí isso baseado em…” Caio levantou a mão. A sala congelou. Foi um gesto pequeno. Mas gesto pequeno, quando é o primeiro, tem força de incêndio.
“Só pra alinhar,” Caio disse, com uma calma que parecia vidro prestes a estourar, “eu montei essa estrutura toda, e os dados aqui são estimativas, porque ainda não recebemos a base final.” Silêncio. Arthur ficou imóvel. O cliente olhou pra Caio com surpresa e, pela primeira vez, curiosidade. Mangal sussurrou: “Isso. Justiça. Clareza. Proteção.” Arthur tentou rir e corrigir: “Claro, claro, Caio ajudou…” Caio continuou, sem pedir permissão. “E eu preciso reforçar que, se vocês querem esse resultado, o prazo real é X, não ‘pra ontem’. Pra ontem é ótimo pra meme, ruim pra contrato.” O cliente, que parecia acostumado com gente que só concorda, soltou uma risada curta. “Finalmente alguém falando como adulto.” A reunião mudou de tom. O projeto mudou de prazo. O cliente mudou de respeito. E Arthur… Arthur mudou de cor. Caio sentiu o tremor na mão. Mangal estava satisfeito — não porque venceu alguém, mas porque Caio se defendeu. Isso é a coisa que quase ninguém entende: raiva não é só destruição. Raiva é fronteira. Raiva é o “não” do corpo quando a mente fica tentando ser “boazinha” pra não ser rejeitada.
Só que a vida adora plot twist. Quando Caio achou que tinha resolvido, o celular vibrou. Mensagem da irmã: “Pai caiu. Tá no hospital.” O chão saiu debaixo da realidade. Caio levantou e saiu do escritório sem explicar. Desceu a escada como quem foge de um incêndio, mas por dentro o incêndio era ele. No caminho, o trânsito travou. Claro que travou. A cidade tem um senso de timing demoníaco. Caio bateu no volante. Mangal apareceu gigante, olhos em brasa. “Ninguém ajuda. Nada flui. O mundo é um obstáculo com pernas.” Caio sentiu o peito apertar. Era medo. E o medo, quando encontra a raiva, faz um casamento tóxico: um quer controlar, o outro quer destruir. No hospital, o cheiro de álcool e desespero. A irmã chorando no corredor. O pai, velho, teimoso, com a cabeça enfaixada, tentando fazer piada pra não admitir fragilidade.
Caio entrou no quarto e viu o pai com aquele olhar de quem sempre achou que “aguentar” era sinônimo de “viver”. O pai disse: “Foi nada. Eu tô bem.” E Caio, sem querer, explodiu. “TU NÃO TÁ BEM! TU NUNCA TÁ BEM! TU SEMPRE FINGE QUE TÁ BEM! TU CAIU PORQUE TU NÃO PARA!” A irmã arregalou os olhos. O pai ficou quieto. O quarto ficou menor. Mangal vibrou como se fosse festival: “FALA! TIRA! VOMITA A VERDADE!” Caio tremia. Não era só raiva. Era amor frustrado. Era anos de ver o pai se destruir em nome de “ser forte”. Era o filho carregando a herança emocional de um homem que confundiu dureza com dignidade. O pai respirou e, pela primeira vez, não tentou ser herói. “Eu não sei parar,” ele disse, quase sussurrando. “Se eu paro, eu sinto.” E aquilo bateu em Caio como soco: o pai tinha medo do próprio mundo interno. Caio entendeu, com uma clareza cruel, que aquela raiva que ele sentia… ele aprendeu ali. Não como genética. Como linguagem de sobrevivência.
No corredor, Caio saiu pra tomar água. A mão dele ainda tremia. Mangal apareceu menor, sentado no chão mental, segurando a colher de pau como se fosse um brinquedo quebrado. “Eu só quis proteger,” ele disse, pela primeira vez sem arrogância. Caio fechou os olhos. “Eu sei.” E aí aconteceu a coisa mais estranha: Caio conversou com a própria raiva como se fosse uma criança. Porque era. “Você é rápido. Você é forte. Você me dá coragem. Mas você não pode dirigir sozinho.” Mangal fez bico. “Mas se eu não dirigir, a gente morre.” Caio respondeu: “A gente morre se você dirigir sempre. Porque você não sabe frear. E eu preciso de você com maturidade. Não com explosão.” Mangal ficou em silêncio. Depois, com aquela teimosia típica de general que não gosta de terapia: “Então me treina.”
Nos dias seguintes, Caio fez uma coisa que parecia pequena, mas era revolução: ele aprendeu a usar a raiva como motor, não como incêndio. Ele começou a correr de manhã, não pra “ficar fitness”, mas pra dar um destino físico pra energia que antes virava briga com a vida. Ele parou de responder e-mail na hora da fúria. Escrevia. Salvava. Lia depois. Às vezes apagava. Às vezes enviava. E quando enviava, era preciso, direto, limpo — a fala clara, sem veneno. Ele começou a dizer “não” sem pedir desculpas por existir. Começou a registrar tudo com Arthur, por escrito, não por paranoia, mas por higiene espiritual: gente que se apropria do teu trabalho cresce em terreno de silêncio. E, num dia improvável, ele chamou Arthur pra conversar. Arthur fez cara de “lá vem drama”. Caio disse: “Eu não sou teu escudo nem teu fantasma. Se meu trabalho estiver na tua boca, meu nome vai junto.” Arthur riu sem graça. Tentou manipular. Caio não mordeu. Mangal, dentro dele, sorriu. Não aquele sorriso de destruição. Um sorriso de aço bem forjado.
Meses depois, numa reunião grande, o cliente perguntou: “Quem lidera isso de verdade?” Arthur ia responder. Caio levantou o queixo, sem agressividade, com presença. Antes de Arthur abrir a boca, o cliente apontou: “Você. Eu quero falar com você.” Arthur engoliu seco. Caio sentiu uma calma quente, como fogo controlado em lareira. Mangal apareceu com uma medalha imaginária e colocou no próprio peito, dramático, porque raiva também é vaidosa. “Viu? Eu disse. Ação.” Caio respondeu mentalmente: “Ação com consciência.” Mangal fez uma careta, mas aceitou. Foi um acordo.
No aniversário do pai, Caio viu o velho sentado, mais quieto, menos teimoso. Ainda duro, ainda resistente, mas com um tipo de humildade nova: a humildade de quem caiu e percebeu que não é invencível — e que isso não é vergonha, é verdade. O pai disse: “Tô tentando parar mais.” Caio não fez discurso. Só respondeu: “Boa. Porque eu não quero te ver virando lenda. Eu quero te ver virando gente.” O pai riu. A irmã chorou de leve. Mangal, dentro de Caio, não gritou. Só ficou ali, em pé, como guarda na porta: presente, atento, mas não tirano.
Moral da história: raiva não é demônio. É um santo bruto sem catequese. Ela chega pra te salvar do abuso, do silêncio, da submissão, da injustiça — mas, se você idolatra, ela te escraviza. Marte ♂ dentro de você não quer te transformar num incêndio ambulante; quer te transformar em coragem com coluna. Quer te dar corte, decisão, músculo de “não”. Quer te ensinar que paz não é ausência de conflito: é presença de limites. E limite, meu bem, é amor com dentes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário