A primeira vez que eu vi a Lua ☽ de verdade não foi no céu. Foi numa cozinha.
A cozinha era pequena, cheirava a café requentado e a um "eu tô bem" que ninguém comprava. A luz do teto piscava como se também tivesse ansiedade. Na mesa, uma mulher com a coluna reta demais pra quem dorme pouco encarava o celular como se fosse uma sentença. Do outro lado, um menino de uns oito anos comia cereal sem leite, porque o leite tinha acabado e ela tinha esquecido de comprar. Não por irresponsabilidade. Por sobrevivência. A mente dela estava ocupada demais tentando segurar o mundo com fita adesiva emocional.
A Lua entrou sem pedir licença, do jeitinho que ela entra em tudo: pela fresta. Um risco de luz no azulejo, um brilho tímido na colher, um silêncio mais cheio do que o normal. E aí aconteceu aquela cena ridícula e sagrada que o universo adora: a mulher, do nada, começou a chorar. Não um choro dramático de novela. Um choro econômico. Só duas lágrimas. Daqueles que parecem dizer "não era pra eu estar viva até aqui, mas olha eu aqui".
O menino olhou. Não falou nada. Criança é um radar de subtexto. Ele empurrou a tigela na direção dela como quem oferece um tratado de paz. Ela deu um sorriso que tinha mais culpa do que alegria e disse: "Mamãe tá só cansada." Mentira. Ela tava exausta de existir dentro de si mesma. E a Lua, que não perde uma, ficou ali, plantada no azulejo, testemunhando como uma avó antiga: sem julgamento, só presença.
Se você acha que isso é "só" um momento, eu te aviso: a Lua é especialista em "só". Ela pega o "só" e transforma em destino. "Só uma conversa" vira separação. "Só uma saudade" vira recaída. "Só um pensamento" vira insônia. A Lua não grita. Ela infiltra.
Naquela noite, quando o menino dormiu, a mulher abriu a geladeira e ficou olhando pra prateleira vazia como quem olha pro próprio peito: dá pra ver que era pra ter coisa ali. Ela fechou a porta e encostou a testa nela, como se o frio pudesse esfriar também a cabeça. E foi aí que a Lua falou. Não em palavras. A Lua fala em lembrança, em cheiro, em cena. Um flash: a mãe dela, anos atrás, numa outra cozinha, dizendo com a mesma voz cansada: "Eu tô bem." A mentira atravessando gerações como herança maldita.
A mulher se viu pequena, sentada no chão do banheiro, ouvindo briga atrás da porta, contando azulejos pra não contar medo. O corpo lembra. O corpo sempre lembra. A Lua governa o arquivo. E arquivo não é museu: é armário embolorado. Você abre e cai coisa na sua cabeça.
Ela respirou fundo e, numa lucidez que doeu, pensou: "Eu virei o que eu jurei que não ia virar." E aqui entra o detalhe que ninguém te conta: quase todo mundo vive tentando consertar o Sol — carreira, status, metas — enquanto a Lua tá ali no porão, segurando as paredes com as mãos tremendo. Você pode ganhar o mundo. Se a Lua estiver faminta, você vai mastigar vitória com gosto de areia.
No dia seguinte, ela foi trabalhar. Rosto de gente funcional. Maquiagem de sobrevivência. E a Lua, claro, foi junto, porque ela não é astro distante: ela é o clima interno. No metrô, um homem riu alto de um vídeo. A risada dele era igual à risada do pai dela quando bebia e virava outra pessoa. O coração dela disparou sem autorização. Isso se chama gatilho, mas eu gosto mais de chamar de: a Lua puxando alarme de incêndio porque sentiu cheiro de passado.
Ela desceu na estação errada. Não porque estava distraída. Porque o corpo dela decidiu fugir. O corpo é fiel à Lua. O ego é fiel ao Instagram. A conta é sempre paga no corpo.
Na rua, ela entrou num café qualquer e pediu um chá que nem gostava, só pra ter o que segurar com as mãos. Sentou perto da janela e ficou observando as pessoas como quem assiste a um filme em que todo mundo sabe o roteiro menos ela. Aí, do nada, uma senhora sentou na mesa ao lado. Cabelo branco, roupa simples, olhos de quem já perdeu coisas e não ficou cínica. A senhora puxou conversa com a naturalidade dos seres que não têm mais tempo pra frescura.
"Você tá com cara de lua minguante", ela disse.
A mulher riu. Um riso pequeno, meio indignado, meio aliviado. "E existe cara de lua minguante?"
"Existe. É a cara de quem tá tirando pedaço de si pra continuar funcionando. Minguante é isso: fazer o impossível com o que sobrou."
A mulher quis retrucar, mas a garganta travou. Porque alguém tinha acabado de descrevê-la com precisão cirúrgica sem pedir CPF, sem ler mapa, sem ver stories. E a Lua ama isso: ser reconhecida.
A senhora continuou, mexendo o café como quem mexe um caldeirão. "Você acha que tá tudo escondido, mas não tá. A Lua mostra. Só que ela mostra em vidro embaçado. Você precisa aprender a limpar o vidro."
"E como eu limpo?" a mulher perguntou, sem perceber que estava pedindo socorro.
A senhora deu de ombros. "Você para de mentir pro seu corpo. Você para de chamar de 'cansaço' aquilo que é tristeza antiga. Você para de dizer 'tá tudo bem' quando tá tudo 'sobrevivível'."
A mulher olhou pela janela e viu o próprio reflexo misturado com a rua: ela e o mundo colados. Lua total. "Eu não tenho tempo pra desmoronar", ela disse, quase com raiva.
A senhora sorriu com um tipo de ternura que dá vontade de brigar e abraçar ao mesmo tempo. "Ninguém tem. Por isso desmorona doente."
A conversa podia terminar ali, mas a Lua adora um plot silencioso. A senhora abriu a bolsa e tirou um lenço bordado com uma lua pequena no canto 🌙. Estendeu pra ela como quem oferece um símbolo. "Isso aqui foi da minha mãe. E da mãe dela. Toda vez que eu acho que vou afundar, eu lembro: maré não é castigo. Maré é movimento. A água sobe, a água desce. Você não precisa bater nela. Só precisa parar de fingir que não é água."
A mulher pegou o lenço como se fosse um amuleto. E foi aí que a parte realista da vida resolveu dar o tapa: o celular dela vibrou. Mensagem da escola. "Seu filho caiu. Nada grave, mas venha buscá-lo." O coração dela virou gelo. A Lua, de novo, puxando o arquivo: "queda" era a palavra que mais doía na infância dela.
Ela saiu correndo, sem terminar o chá, sem agradecer direito, sem entender nada. Quando chegou, o menino estava sentado com um curativo no joelho e um olhar que tentava ser corajoso, mas falhava. Ela se agachou e, sem conseguir se controlar, chorou ali mesmo, na frente dele, na frente da secretária, na frente da vida.
"Desculpa", ela disse, e foi um pedido de desculpas que não era pelo joelho. Era por tudo.
O menino, com aquela sabedoria indecente das crianças, passou a mão no rosto dela e falou: "Tá tudo bem. Eu só caí. Eu levantei."
E pronto. A Lua fez o serviço dela: ela pegou uma frase simples e abriu um portal. "Eu levantei." A mulher ouviu isso como se fosse um mantra. Ela levantou? Ou ela só continuou?
Naquela noite, ela não conseguiu dormir. Ficou deitada, ouvindo o barulho da casa, o estalar do móvel, o vento batendo na janela, e uma outra coisa: a própria mente. Pensamentos rodando como hamster com doutorado. E aqui vai um detalhe neuroastrológico, do jeito que a Lua gosta: quando o sistema nervoso está em alerta crônico, o cérebro vira vigia. A amígdala (aquela central de alarme) interpreta qualquer ruído como ameaça. O corpo vive em "prepare-se pra guerra" mesmo quando só tem um copo na pia. A Lua, quando ferida, transforma rotina em campo minado.
Ela levantou, foi até o banheiro e se encarou no espelho. Luz fria. Olheira funda. A cara de lua minguante. Lembrou da senhora. "Você para de mentir pro seu corpo." A mulher respirou e fez uma coisa que parecia pequena, mas era revolucionária: ela disse em voz alta, só pra si: "Eu não tô bem."
E não caiu um raio. Ninguém morreu. O mundo não desabou. O teto não abriu. Só aconteceu um silêncio diferente, como se a casa inteira tivesse soltado o ar preso. A Lua ama quando você fala a verdade baixinho. Porque é assim que ela cura: por dentro.
No dia seguinte, ela fez algo ainda mais escandaloso: marcou terapia. Sim, eu sei, parece propaganda de autocuidado, mas calma, não é isso. Ela marcou terapia não pra "se tornar a melhor versão de si mesma" (essa frase dá coceira metafísica), mas pra parar de passar a vida inteira sendo babá do próprio trauma. Trauma é uma criança malcriada: se você ignora, ela grita; se você mima, ela manda; se você educa com presença, ela aprende.
Na primeira sessão, ela falou do pai. Da mãe. Do medo. Da culpa. Do cansaço. Falou do jeito que dá: tropeçando, pedindo desculpa por sentir, rindo quando devia chorar, mudando de assunto quando encostava na ferida. E a terapeuta, uma mulher de voz firme, disse a frase que a Lua usa como martelo: "Você não precisa merecer descanso. Você precisa."
A mulher saiu de lá com uma sensação estranha: não era felicidade. Era espaço. Como se alguém tivesse aberto uma janela dentro do peito. A Lua não te dá euforia. Ela te dá intimidade. E intimidade, no começo, assusta.
As semanas passaram. Teve dia bom. Teve dia horrível. Teve recaída. Teve vontade de desistir. Teve um dia em que ela gritou com o filho por causa de uma meia no chão e depois se odiou por isso. Teve um dia em que ela conseguiu respirar e pedir desculpa sem se humilhar. Teve um dia em que ela olhou pro filho dormindo e sentiu uma coisa que não sentia há anos: ternura sem tensão. Como se amar não precisasse doer.
E aí veio a Lua cheia. Claro que veio. Porque a Lua cheia não é fofinha. Lua cheia é holofote. É quando a emoção sobe sem pedir autorização. É quando o inconsciente faz live. Aquela noite, ela sonhou com a mãe dela. No sonho, a mãe estava jovem, com as mãos cheias de farinha, fazendo pão. Olhou pra ela e disse: "Eu não sabia como fazer diferente." E a mulher acordou com o travesseiro molhado e a cabeça latejando de uma compreensão perigosa: ninguém te machucou porque era vilão de desenho animado. Te machucaram porque estavam machucados. Isso não desculpa. Mas explica. E explicar é o primeiro passo pra parar de repetir.
No dia seguinte, ela fez uma coisa que achava impossível: ligou pra mãe.
A conversa foi torta. Cheia de silêncio. Cheia de frases defensivas. Cheia de "eu fiz o que pude". E aí, no meio, a mãe dela falou algo que a Lua guardou como pérola: "Eu também mentia dizendo que tava bem. Eu achei que era ser forte."
A mulher fechou os olhos. Sentiu raiva, pena, amor, tudo junto. Lua é isso: mistura que dá ressaca. "Eu não quero passar isso pro meu filho", ela disse.
Do outro lado da linha, a mãe respirou como quem carrega pedra. "Então não passa. Mas não vira santa também. Só… aprende a pedir colo pra Deus, pra vida, pra você mesma. Eu nunca pedi."
Se você tá esperando uma reconciliação perfeita, parabéns: você ainda acredita em roteiro de Hollywood. Vida real é mais linda e mais irritante. Não virou um comercial de margarina. Mas alguma coisa amoleceu. E às vezes, amolecer é o milagre.
Meses depois, numa noite qualquer, faltou luz no prédio. Apagão. Nada de Wi-Fi. Nada de distração. Só escuridão e a vida encarando você de frente, tipo: "E aí, vai fazer o quê agora, campeã?" A mulher acendeu velas. O menino ficou animado como se fosse acampamento. Eles sentaram no chão da sala, comeram biscoito, contaram histórias. Sem telas. Sem pressa. Sem o mundo inteiro entrando pela retina.
E foi nesse apagão que a Lua apareceu no céu, enorme, branca, quase indecente. 🌕
O menino apontou e disse: "Olha, mamãe. Ela tá olhando pra gente."
A mulher riu. "Ela não olha. Ela só… fica."
"Então ela fica com a gente."
A mulher sentiu um nó na garganta. Porque era isso. A Lua não resolve. Ela acompanha. Ela não te livra da maré. Ela te ensina a nadar sem se odiar por ser água.
Ela pegou o lenço bordado que agora morava na gaveta dela como um talismã de lembrança boa. Passou no rosto, não porque estava chorando, mas porque precisava sentir que aquele símbolo era real. Olhou pro menino. Olhou pra Lua. E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu uma coisa rara: segurança interna. Não aquela segurança arrogante de quem controla tudo. Segurança verdadeira: a de quem sabe que vai doer às vezes e mesmo assim vai continuar sendo humano.
Nesse instante, a Lua fez o que ela faz melhor: transformou uma cozinha, uma queda, um café, uma ligação e um apagão num rito de passagem silencioso.
E se você leu até aqui achando que isso foi "sobre ela", eu tenho uma notícia mística e meio debochada: a Lua tá te espionando desde o primeiro parágrafo. Ela sabe exatamente onde você finge que tá bem. Ela sabe qual lembrança você tranca no armário e chama de "passado". Ela sabe onde seu corpo grita e você responde com produtividade.
A Lua ☽ não quer te punir. Ela quer te devolver. Devolver você pra sua própria casa interna — aquela que não tem aluguel, mas exige presença.
E presença, meu amor, é o verdadeiro milagre. Porque o resto… o resto é só luz emprestada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário